Sobre Máscaras e Representações

E essa religiosidade era tão nociva para os irmãos que, seguramente, eles acabavam perdendo a sua humanidade, sua autenticidade. A condição que a atmosfera carregada da Maranata impõe sobre eles era de um efeito tão devastador sobre a alma, que, quer queira quer não, transformava-os num personagem religioso. Devido ao rigor farisaico do sistema, você, coagido pelo contexto, acabava encarnando um personagem, diferente de si mesmo, de sua identidade, para se enquadrar nas perspectivas que os líderes exigiam de você. Ora, a partir do momento em que a Maranata se alimentava desses valores da vaidade e badalação religiosa, as pessoas passavam a representar um papel, criar um personagem, que não era o seu “eu”, mas aquilo que o sistema, os líderes queriam que eles representassem para as conveniências da Instituição. De sorte que você sempre teria que ostentar as “credenciais” exigidas ao cargo eclesiástico, caso contrário, seria boicotado no sistema. E a sobrecarga psicológica desse legalismo era tão intensa, que você, com o tempo, perdia totalmente a sua condição de humano, do que você realmente era, e transformava-se numa caricatura, num robô, com palavras e gestos friamente automáticos e pré-determinados pelo sistema. Que coisa horrível!

Em termos práticos, quando advinha alguma tribulação familiar, profissional ou financeira – o que todo ser humano está sujeito a sofrer -, você, já com a sua humanidade tolhida, não poderia demonstrar tristeza, desânimo, fraqueza, se não, era nivelado por baixo como “enfermo”, “oprimido”, “sem-obra”, “sem-revelação”, ou mesmo repreendido: “Não diga isso, meu irmão! Não diga que você está triste! Você não sabe? Servo dessa Obra não fica triste! Isso é o Inimigo na sua vida. Essa Obra é de valentes, não de covardes! O varão está oprimido e precisa de uma libertação. Tem vindo às madrugadas?” É muita demagogia! É de um fingimento falso piedoso…

O irmão não poderia recorrer à ajuda do pastor, dos diáconos, dos amigos, se não seria “diagnosticado” no “Grupo de Intercessão” como portador da “síndrome da queda”, e de ele a igreja, agora, “teria que ter muito cuidado para não se contaminar, pois é um tumor no corpo”. O que fazer, então, se o necessitado não era acolhido pela igreja? Ora, ele omitia seus problemas! Colocava a máscara! A máscara de “valente da Obra”! Encarnava um personagem para fazer tipo, do forte, do crente poderoso, do super espiritual, do “he-man da espiritualidade”, tentando esconder e impressionar os outros (que sofriam do mesmo problema) do quanto ele era espiritual e indestrutível – maquiando suas fraquezas, ficando sem ajuda, sem consolo, sem o ombro amigo, sem apoio de uma família [dita] de Deus. Isso não é honesto, é hipocrisia e dissimulação. E isso teve um resultado: muitos, inevitavelmente, desembocaram no abismo, para a depressão e, provavelmente, para algo pior. Mas, o sistema pouco está preocupado, afinal, pelo menos, o “valente” preservou a “imagem da Obra”, que ostenta que seus crentes são super-homens e indestrutíveis.

E é por isso que vocês não vivem o que é bíblico. Além de serem carrascos, negarem ajuda, inferiorizarem o necessitado em nome da “imagem da Obra” (idolatria), vocês negavam as palavras dos salmistas que, em sua humildade, reconheciam suas fraquezas, seus tempos difíceis, suas inconstâncias, mas o Senhor honrava e erguia aquele que é sincero, autêntico, humano e verdadeiro consigo mesmo, dependente sempre do Senhor, e que não ficava, orgulhosamente, fazendo tipo de “Não me abalo com nada. Tenho muita fé. Sou muito espiritual!”.  Afinal, quem é que vive em eterna constância? Seriam vocês?

Mas o verdadeiro cristão busca ser como Jesus, que não cumpria um papel para agradar o público, não vestia um personagem que se descolava dele mesmo, para agradar as opiniões e preconceitos de líderes da época. Jesus obedecia tão somente às Palavras do Pai. Mas lá, enquanto precisávamos a aprender, no exercício da nossa espiritualidade, o que é ser natural e autêntico, éramos boicotados e perseguidos por demonstrar nossas fragilidades, limitações e fraquezas. Não podíamos estar cansados, não podíamos estar tristes, não podíamos estar fracos, enfim, sempre era obrigado que ostentássemos um ar artificial de indestrutível, formal, sério, de espiritual, de “usado por dons”, para não sermos perseguidos e ostracizados com o “banco”. Isso é desumano. É falsear a realidade. Deus não tolera a mentira! Deus não vê a máscara, vê o coração. Deus recusa o soberbo, o plastificado, que sempre quer exibir o seu ar de “perfeito”; mas acolhe o humilde que pode ficar triste, fraco, tal como Jesus, em momento de tristeza, que disse: “A minha alma está triste, e está triste até a morte!”  O problema é que o “deus” que vocês servem é um deus cujo caráter é o ego de vocês – “Olha, que fracote! Bobinho! Fraquinha! Covarde!”

Deus não trata suas ovelhas, como vocês tratam os membros da Maranata, menosprezando e “chutando cachorro morto” quando cometem pecado (quando a liderança fica sabendo), mas trata com a maior dignidade possível, com uma verdadeira paciência e um amor não fingido e eficaz. O Deus das Escrituras, o Deus Altíssimo, o Deus Vivo, não trata as pessoas que erram, que caem em pecado, com desmoralização e pisoteia mais ainda em suas mazelas, expondo seus pecados. Mas o Deus Único revela-se ao pecador, expondo os seus pecados, para lhe reerguer, pois apesar do pecado, Deus está consigo e quer mudá-lo, levantando o pecador como um instrumento em suas mãos, jamais expondo pecado para expor e, por fim, discriminar – assim foi com Paulo, Pedro, Davi, Gideão, Raabe, Jacó, Moisés, a ovelha perdida, o filho pródigo etc. Deus não ajuda apagar a chama fraca de uma vela, Ele a protege com as mãos e assopra pacientemente para ela reacender com força e vida. Eis a diferença do deus do Presbitério do Deus da Bíblia.

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