Sobre a Fabricação de Crentes e a Mediocridade Religiosa

Vocês não podiam querer forçar o que é espontâneo. Vocês não podiam “padronizar” o que é voluntário e pessoal. Vocês não podiam invadir a intimidade das pessoas a ponto de transformá-las em clones de si, sem identidade, sem personalidade, sem natureza própria, mas apenas um crente fabricado, plastificado e estereotipado da liderança, empanzinado de jargões e maneirismos religiosos, como papagaio ou marionete. Até os trejeitos do grande líder de vocês, alguns, invariavelmente, passaram a imitar dado ao arsenal de regras asfixiantes de “pode” e “não pode”, “deve” e “não deve”. É triste! Será possível que vocês jamais tiveram a humildade de reconhecer que uma vida de uma simples pessoa não pode ser uma projeção, uma imitação, dos líderes de vocês?

Vocês viam as pessoas como uma pedra que deveria ser talhada à estátua de seus líderes, e não segundo as instruções da Palavra de Deus. Vocês deveriam ser humildes, e considerar e respeitar cada ser humano individualmente, em sua identidade, como uma pessoa criada por Deus, e não como mais uma “cabeça” de sua boiada. Em sua arrogância religiosa, vocês jamais poderiam achar que suas perspectivas religiosas eram a mais exata expressão de ser um crente comprometido. Vocês deveriam ansiar o desejo de ajuntar cristãos para um caráter de igreja, e não ajuntar pessoas para um comportamento de manada. Vocês deviam, realmente, deixar o Espírito Santo trabalhar, confiar de fato no Senhor, e deixá-Lo operar na vida das pessoas, cabendo tão-só a vocês a tarefa de aconselhar, sugerir, estimular, como um apascentador, e não se intrometer para gerir a vida delas segundo as suas visões e entendimentos, a ponto de retirar até a condição dos membros de pensarem e tomarem decisões por si próprios, censurando, controlando suas vidas e sentimentos, como se fossem donos da vida deles. Absurdo isso!

E sabe por quê? Por causa da regulamentação de atividades religiosas, mediante a lógica da Teologia da Causa e Efeito para adquirir bênção e salvação de Deus. Aos neófitos, na Maranata, que possuíam o coração totalmente íntegro (vontade) para servir a Deus, cheios de gratidão, logo eram lhes furtados esses sentimentos legítimos, quando passavam a ser coagidos moralmente a fazer “isso e assado” em prol da “Obra” para alcançarem benefícios seculares, sentimentais, espirituais e afins. O serviço ao Senhor produz amadurecimento na vida espiritual, contudo, na Maranata, uma vez membro, sob si despejava-se as regulamentações: madrugada, jejum, horários, ensaios, reuniões, seminários, enfim, tudo regulamentado como obrigatório – uma verdadeira rotina empresarial ou militar, para muitos, uma prisão. Sai o evangelho de Jesus, resgata-se a lei, e a vida espiritual, agora, está atrelada aos rudimentos da lei. Forjaram este estereótipo de “servo da Obra” ao qual deve ser enquadrado, e fora desse estereótipo o sujeito era menosprezado.

Ouvia-se muito: “O irmão ainda não fala em línguas. Falta alguma coisa na sua vida, varão!” E ao julgar a vida alheia, assim, como um “problema”, perguntavam: “O varão tem vindo às madrugadas?” Ora, não seria orando? Com essa lógica religiosa foi definido Lugar, Tempo e Forma para a oração ser aceita, ou seja, na “madrugada” (06h:00min, necessariamente no templo, conforme a liturgia pré-determinada). Quer dizer, ficou incutido o seguinte na mente desse povo: pela manhã, tarde ou noite a oração não tem lá seus efeitos como tem na “madrugada”.

Dessa forma, reputaram-se os “irmãos da madrugada” mais espirituais, mas, a verdade era que eles, em sua maioria, estavam ali muito mais concentrados na satisfação de seus fins pessoais do que de fato interessados em se relacionar e estar mais próximo de Deus. Estavam ali muito mais movidos por um sentimento egocêntrico, sobre algo pertinente ao matrimônio ou profissão, ou até mesmo espiritual, para ser “usados nos dons” e ser visto pelos líderes, para ser agraciado com cargos e funções, do que interessado em conhecer mais a pessoa de Deus, intimamente, e crescer nos frutos do Espírito Santo, como amor, alegria, temperança, honestidade, justiça etc.

Ora, para se constatar isso, era só pedirmos para um “irmão da madrugada” contar uma experiência sobre a tal que ouvíamos coisas como: “O Senhor abriu uma porta de emprego”, “O Senhor curou minha doença”, “O Senhor me ajudou a passar no vestibular”, “O Senhor abriu as postas de um negócio que me fez vender muito”, “O Senhor me ajudou a comprar o meu carro”, “O Senhor ajudou a vencer um problema familiar” sempre nesse viés secular.  Jamais ouvíamos, por outro lado, algo do tipo: “Com a madrugada me tornei mais humano, amoroso, amigo, paciente, terno, justo, sincero, verdadeiro, mais próximo e amigo de Deus, mais dado à oração e à leitura da Palavra, etc.” A “madrugada” regulamentada se tornou um amuleto, pois passaram a confiar muito mais na participação da sistemática dela, do que na fé em Deus propriamente. O neófito é engolido por esse sistema prisional e logo tivemos o coração voluntário agindo por força e violência. O Espírito voluntário fora extirpado.

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