O Espírito do Institucionalismo

Vê-se muita confusão na mente de alguns quando começam a associar Igreja a denominações ou a seus sistemas. Muitos ainda as enxergam como “corpos de Cristo”, e sabe-se, pela Escritura, que a Igreja é o Corpo de Cristo, um corpo só (Ef. 4:4). E igreja são pessoas reunidas (em qualquer lugar), e não um lugar (específico) construído, ornamentado e orquestrado por dogmas, usos e costumes particulares elaborados por líderes institucionais.

A igreja tem duas dimensões: organismo e organização, respectivamente, corpo místico de Cristo e instituição religiosa, que convivem e se misturam enquanto fenômeno histórico e social. O grande desafio dos cristãos que hoje preferem viver a organização de uma igreja numa Instituição é fazer esta dimensão institucional diminuir para deixar o organismo espiritual crescer.

O que se observa hoje, entretanto, é um movimento contrário, no qual muitas comunidades cristãs caminham a passos largos para a institucionalização. Muitas igrejas organizadas estão perdendo seu caráter de família de Deus, de comunidade cristã, de confraria de irmãos em Cristo que se reúnem para adorar a Deus, estudar as Escrituras, aconselharem-se mutuamente, alimentarem-se reciprocamente com os valores do Evangelho e Espírito Santo, prepararem-se para o evangelismo e ajudar os necessitados, enfim, e se tornando praticamente empresas religiosas ou fábricas/fast-food de crentes esteriotipados. Os membros estão a encarnar o papel de meros empregados que fazem a “roda institucional girar” e líderes-administradores que lançam muito mais mão de técnicas de empreendimentos do que conselheiro e amigo das pessoas, no que leva essas igrejas a fincar os dois pés no terreno da religiosidade formal, fria e vazia. Essas igrejas tornaram a instituição maior do que as pessoas, de modo que, se preciso for, são capazes de sobrepujá-las para prevalecer os interesses do sistema.

Essas igrejas perdem o caráter original de igreja, que é uma família, ao colocar como centro da fé a própria instituição, e não o relacionamento dos membros entre si, em Cristo. As igrejas embevecidas por esse espírito institucional estão priorizando muito mais os interesses delas mesmas, para se manterem enquanto empresa, do que as próprias pessoas, enquanto família e relacionamentos. Porque eles acreditam, muito por força da tradição iniciada pela Igreja Romana e seguida pela vasta maioria dos protestantes, que esta ênfase aos interesses organizacional da Igreja, enquanto instituição crescendo em números de membros e atividades voltadas ao sistema, implicará também num crescimento espiritual ao grupo, e, para tanto, decidem sistematizar as práticas e reuniões na pretensão de organização e zelo “com as cosias de Deus”, culminando na perda da naturalidade do caráter de família e do esfriamento dos relacionamentos. A atmosfera da igreja acaba se tornando muito artificial, plastificada, conforme os valores do sistema. Perde-se a espontaneidade típica de um grupo de amigos, e vira a imposição de uma empresa comercial.

O Sistema Religioso

Um sistema é uma reunião de princípios de modo a formarem um corpo de doutrina; combinação de partes coordenadas que concorrem para a formação de um conjunto. Assim, o governo humano possui sistemas políticos, econômicos, jurídicos e sociais, os ajuntamentos humanos também tendem a organizar sistemas. A igreja quando deixa de ser guiada pelos valores do Evangelho e inspirada pelo Espirito Santo, ou seja, quando homem deixa seus sentimentos egocêntricos e tradições própriasembrenharem-se no ambiente, também tende a desembocarnum sistema denominado sistema religioso. Assim como todo tipo de sistema, o sistema religioso também traz os mesmos elementos envolvidos, quais sejam: busca de poder ou manipulação política, busca de prestígio de uns em detrimento de outros, lutas internas, controle dos membros, legitimação do poder, hierarquia explícita ou subentendida e um corpo de normas ou doutrinas humanas a serem observadas a contento.

Um dos grandes problemas das igrejas institucionalizadas é que pregam que o ápice da vida cristã está na frequência e a obediência à rotina de atividades da Instituição, em obediência ao sistema religioso. Como dissemos, para adeptos dessa lógica religiosa, se as atividades estiverem bem, a espiritualidade da igreja está bem; se as atividades estiverem ruins, a vida espiritual da igreja está mal. Entenda-se “Igreja” aqui apenas como aqueles que estão ou que costumam frequentar às atividades eclesiásticas. Isso significa que, se você não costuma frequentar às atividades religiosas da Instituição, também não faz parte do grupo, embora possa encontrar-se com os irmãos nas casas ou em outros lugares. No fim, o importante é a saúde do sistema a ser mantido, e não a saúde dos relacionamentos entre os irmãos.

A igreja enquanto Instituição é importante por diversos motivos:

a) há um lugar onde todos podem conhecer novos irmãos de uma só vez sem ter de ir a vários lugares;

b) há um lugar onde você pode pregar uma boa palavra e os ouvintes podem ter acesso a ela de uma só vez ou ao mesmo tempo, o que, nas casas, implicaria repetir a mensagem tantas vezes quantas fossem as famílias que se reúnem no grupo;

c) há um lugar para onde trazer os incrédulos a fim de que ouçam o evangelho.

O erro do Institucionalismo reside no espírito de sistema, na maioria das vezes, embrenhado em uma igreja e por ele suscitado, em centralizar a maior parte de seus esforços financeiros e serviços em prol da instituição, em suas metodologias, dogmas próprios e no local de reuniões. Essa idéia também peca por não considerar que a Igreja pode estar reunida, mas também pode estar dispensa no dia-a-dia de cada santo, o que não a desqualifica ou diminui sua realidade espiritual de Corpo de Cristo. Aliás, é através dos relacionamentos dos crentes com os incrédulos ou com seus irmãos no dia-a-dia, no seu trabalho, na vizinhança, na escola, enfim, em qualquer lugar, que o evangelho é espalhado e Cristo é conhecido.

Mas não é assim que as pessoas embevecidas por um sistema religioso pensam. A fé e espiritualidade delas são totalmente bitoladas, presas e reféns dessa delimitação territorial e regimental, fazendo-as, em essência, de meras ferramentas para o sistema continuar em pleno funcionamento. No cristianismo de uma Igreja institucionalizada, o foco não é o relacionamento entre irmãos em Cristo e com Deus (amor ao próximo e a Deus), a priori, senão a satisfação do sistema, primordialmente (amor à Instituição).

 Os principais problemas do Institucionalismo podem ser assim enumerados:

a) O local de reuniões necessariamente precisa de um contexto sistemático, formal e ordeiro, alguém que mande e um grupo que obedeça; alguém que fale, e um grupo que ouça; alguém que ensine, e um grupo que aprenda; alguém que dite os rumos do grupo, e o grupo que o siga; enfim, alguém que prescreva “receitas” para pessoa cumprir certa rotina para crescer espiritualmente;

b) a igreja institucionalizada cria a ilusão de que indo para a reunião seus problemas estarão sendo resolvidos; isso, quer queria quer não, provoca o sentimento de passar o resto do tempo meio que descompromissado com os valores cristãos, contanto que depois vá à igreja “receber a bênção”; as pessoas submetidas a um sistema tendem a perder a sua identidade, encarnando um personagem conforme as exigências do sistema, ao que gera uma vida de duas caras, não necessariamente em pecado, mas em total escravidão nos estereótipos impostos;

c) em sistema religioso costuma gerar disputa por poder em influência, especialmente quando o grupo começa a crescer; porque os valores estimados e ensinados pelo sistema não são cultivar a bondade, a justiça e a verdade (frutos da luz – Ef. 5:9) no relacionamento com o próximo; é, a priori, crescer “espiritualmente” em projeção no sistema, com acúmulo de atividades, cargos e funções; isso gera competitividade, vaidade, inveja e ciúmes etc.;

d) as necessidades financeiras costumam ser direcionadas para a manutenção ou ampliação do espaço físico, em detrimento das necessidades dos irmãos mais pobres ou da legião de miseráveis que se concentra nas grandes cidades;

e) o sentimento de “meu grupo”, “minha igreja”, “meus irmãos”, tende a crescer com o tempo, em detrimento do sentimento pelo Corpo de Cristo e pela unidade de todos os filhos de Deus na cidade, o que pode gerar o exclusivismo e sectarismo, através da padronização de procedimentos (hinos, literatura, dons, ministérios etc.); depreciando tudo aquilo fora deste padrão;

f) como a quantidade de irmãos geralmente tende a crescer, torna-se muito fácil “esconder-se no meio da multidão”. Assim, os irmãos de um talento ficam com receio de exercitar seus dons ou fazer questionamentos quanto a alguns pontos da sua nova fé. Quando vêem irmãos “mais espirituais” funcionando, esses irmãos mais fracos ou neófitos na fé tendem a sentir inúteis, desprezados e inferiores, pensando que jamais alcançarão tão alto padrão espiritual;

g) pode criar o sentimento de “ir à igreja” como se fosse um evento social, em detrimento do sentimento de “ser a igreja” sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia;

h) leva os líderes e membros a se exaurirem física, emocional e espiritualmente tendo de cuidar de dezenas ou centenas de membros, de cumprir diversas atividades só para constar, quando, se reunissem nos lares ou mesmo sem obrigações na Instituição, fazendo do espaço mero local de reuniam de culto, poderiam, eles próprios, pastorearem-se mutuamente, como uma família de amor natural e espontâneo, como se ensina a Palavra (1Ts. 5:11).

Esses oito itens tendem a criar o sistema institucional de clérigos e leigos, o principal fator para a degradação da igreja, algo que foi alertado por Jesus desde o início:

“Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens. Eles fazem seus filactérios bem largos e as franjas de suas vestes bem longas; gostam do lugar de honra nos banquetes e dos assentos mais importantes nas sinagogas, de serem saudados nas praças e de serem chamados ‘rabis’. Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.

A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porquanto vocês têm um só Chefe, o Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo. Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado.” Mateus 23:6-12.

É possível, entretanto, que um grupo cristão adote a forma de se reunir em locais de reuniões grandes e, mesmo assim, pelo justo funcionamento de cada irmão, sendo ensinados devidamente sem interesses institucionais, sem caprichos e vaidades hierárquicas, interesses escusos, e que, sobretudo, seja esse grande grupo fragmentado em grupos, para que haja o espírito familiar, não caia em um sistema religioso, não apresentando nenhuma das oito características acima mencionadas. Mas o perigo sempre existirá.

Ressalte-se, por oportuno, que mesmo na qualidade de grupos adenominacionais, não quer dizer que se traduzirá na não-influência do sistema religioso. Muitas igrejas emergentes nos lares estão incorrendo ao mesmo erro, de sistematizar a igreja. Não obstante reunirem-se em lares, elas estão se formando dentro dos mesmos moldes do institucionalismo cristão, o que resulta em comunidades e líderes desgastados logo em seus primeiros anos de funcionamento. É possível congregar nos lares e, mesmo assim, funcionar dentro dos mesmos moldes litúrgicos e estruturais da religião organizada. Muitas comunidades caseiras sucumbiram ao mesmo mal da religião institucional: o controle centralizador por parte de alguns que se acham donos da Igreja e sufocam a manifestação da multiforme sabedoria de Deus, por meio do sacerdócio universal.

É muito comum ver grupos familiares que giram em torno do carisma ou da persona de um único profeta ou mestre. Igualmente, assim como ocorre na instituição, também comumente se observa a formação de aristocracias familiares em que uma determinada família é a dona da Igreja – são as chamadas “Igrejas familiares”, que não devem ser confundidas com os grupos familiares da Igreja. A mudança nestes casos é somente geográfica, perpetuando assim o status quo do sistema de castas clericais com suas liturgias mecânicas que inibem a espontaneidade carismática – algo tão orgânico quanto o Homem de Ferro e o Robocop.

Sem esquecermos de mencionar que muitos desses crentes já estão alardeando no “mercado” a denominação dos “sem denominações” e estes julgam todos que frequentam denominações como “crentes sectaristas” ou com algum outro adjetivo que menospreze a espiritualidade alheia. Apresentam-se dessa forma – anti-denominacional em sua proposta -, mas no fundo não passa de “mais uma”, pois a sistemática e o espírito são o mesmo. Condena veementemente que está emembrado em alguma Denominação, apresentando a “sua” proposta como a “única”.

Hoje, a Igreja esta sendo questionada, banalizada e depreciada praticamente em todos os lugares. Porque sempre estão a associar a Igreja de Cristo a este amontoado de sistemas religiosos forjados à base de pessoalismos do tipo “eu quero assim, porque é assim, e todos têm que seguir”, os quais promovem escândalos atrás de escândalos tão sujos, a ponto de impressionar ímpios.  O surgimento de milhares de denominações, o poderio “apostólico” das igrejas neo-pentecostais, a competição entre as igrejas com suas doutrinas mais sofisticadas, a idolatria denominacional, a secularização das denominações no geral, o ministério pastoral plastificado como profissão, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo Estado, a variedade infindável de políticas de empreendimento expansionista e marketing religioso do tipo “a minha é melhor que a do outro”, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isso tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada.

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Referências:

1.      Igrejas nos Lares – http://www.igrejasnoslares.com.br;

2.      Missão Cristo em Vós – http://www.cristoemvos.com.br;

3.      Grupo News – http://www.gruponews.com.br;

4.      Bíblia NVI;

5.      Carta à Diagneto;

6.      E outras obras literárias;

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