Igreja Cristã: Uma família

Igreja é mais um organismo do que uma organização. Quando meditamos nesta frase, é muito provável passarmos a ver na Igreja alguns aspectos nada tradicionais. Não se trata de uma frase de efeito ou algo que, de maneira descomprometida, se lança contra o aspecto institucional da igreja. Comparar a igreja com um organismo é adequado à visão bíblica, especialmente às palavras do apóstolo Paulo, quando a compara com um corpo (1 Co. 12).

Hoje em dia fala-se muito em “plantação de Igrejas”. Na maioria das vezes em que alguém usa esta expressão, está, na verdade, se referindo à abertura de mais um negócio religioso. Em outras palavras, se o cidadão tem a intenção de “plantar uma igreja” na cidade, logo começa a buscar um imóvel para alugar, um lugar onde possa encher com cadeiras, instalar sistemas de som, pôr um púlpito e um gasofilácio (nas igrejas mais tradicionais). A partir daí, o obreiro – ataviado devidamente de terno e gravata – se mune de um microfone e começa a pregar (às vezes aos berros) na esperança de que os transeuntes decidam entrar no mais novo aprisco de tijolos da cidade, entre os diversos já existentes, às vezes no mesmo quarteirão. Seu alvo, a partir daí, é colocar o maior número possível de pessoas dentro deste cubículo, como sardinhas enlatadas, para assim poderem mudar a um lugar maior. Em termos de igreja, isso é o que se chama de progresso: quanto maior o aperto, maior a benção…

Não julgamos tais pessoas por entender que a maioria dos obreiros que assim faz trabalha para o Senhor de coração, somente reproduzindo aquilo que viu seus pais na fé fazerem. Mas sentimos que muitas vezes queremos começar a construir a Casa de Deus pelo telhado, em vez do alicerce.

Em nenhum momento Jesus Cristo nos diz: “abram igrejas em todas as nações” ou “expandam sua franquia religiosa”. Igreja não é boteco, destes que você abre as portas em alguma esquina e espera as pessoas chegarem. Jesus não nos manda “abrir igrejas”, ele nos manda fazer discípulos (Mat. 28:29). Ele nos manda seguir seu exemplo de lançar o sólido Fundamento na vida de alguns para que estes edifiquem na vida de outros e, assim, o Reino tenha um crescimento exponencial. Toda estrutura deve surgir a partir daí.

A verdade é que a Igreja não é um prédio, não é um evento, não é um sistema aglutinado de atividades rotineiras e um arsenal de dogmas e costumes a serem obedecidos. É uma família. Isso é importante porque se nossa visão de Igreja estiver distorcida, igualmente será nossa prática de Igreja. Quando desenvolvemos a mentalidade de “igreja-boteco”, a primeira imagem mental que temos de “Igreja” é a de um salão cheio de pessoas. Como resultado, a maior parte de nossos recursos – a saber: tempo, dinheiro e pessoas – serão empregados na realização de programas religiosos. Em contrapartida, a imagem que a Bíblia nos dá de Ekklesia é a de uma família, onde as pessoas exercem juntas a prática contemplativa de buscar a Deus, exercicar e aplicar o evangelho em suas vidas, mas também a prática de buscar Cristo na pessoa de seu irmão, fora das “citadelas” religiosas. Assim, gastando tempo uns com os outros, partem o pão entre si, compartilham suas cargas e seus bens em simplicidade de coração.

Mas estar ligado a uma denominação não é errado, e nem quer dizer que a pessoa seja inferior em espiritualidade e entendimento, pois vai muito também de conveniência da vida pessoal, temporal, espacial, local etc. Muitos têm vidas bem diferentes das de outros de modo que exercitar a vida cristã fora de uma denominação poderia ser um algo bastante inconveniente para fé. A questão não são as denominações em si o problema, mas as denominações que vivem em espírito de sistema religioso (eclesiocentrismo), de forma a fabricar a “fé cartorial” nas pessoas. Com o espírito do institucionalismo encarnado nelas, ficam totalmente condicionadas ao sistema institucional, as quais, se examinarem a si mesmas, podem concluir que são mais servas da Instituição do que cristãos de fato; são “cristãos” por força do seu bem-estar, circunstancia emocional ou por conveniência social, mas não por valores e práticas, verdadeiramente, cristãs. Produzir e arraigar a fé a um sistema religioso que é errado.

Assim como, estar desligado de uma Instituição religiosa não significa necessariamente viver em isolamento, afastado de tudo e todos. Há um equívoco em se pensar que estar desligado de denominações é obrigatoriamente viver em isolamento. Se não estamos filiados a uma denominação, se não estamos submetidos a uma rotina de atividades eclesiásticas, significa que estamos “fora do corpo”, como muitos líderes “institucionalizados” gostam de persuadir. Cipriano de Cartago, no terceiro século, disse certa vez: “Fora da Igreja não há Salvação!” Acabou se tornando dogma da Igreja Católica Romana. E tal dogma tem sido adotado por muitas denominações evangélicas. Nesse caso, o sentido da frase até pode ser ampliado para “fora da igreja não há cristianismo!”, significando, entre outras coisas, que cristianismo e igreja sejam a mesma coisa.

O espírito do institucionalismo ou do sistema religioso transformou a Igreja como um fim em si mesma. As Escrituras nos diz que “buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça(Mt 6.33), mas hoje é interpretado como “buscai em primeiro lugar as atividades e ocupações na igreja”, estamos reduzindo o reino de Deus e o adulterando o Evangelho às atividades eclesiásticas, pondo-o sobre trilhos e delimitando-o dento de um organograma institucional, de modo a alterar ensinos e verdades bíblicas.

Sob essa visão reducionista, deixamos de considerar a igreja como um meio que Deus instituiu para ser um ambiente fértil para o desenvolvimento da vida cristã, da piedade, da capacitação do crente para ser cristão no mundo e desenvolver os seus dons de serviço. Além, é claro, de um meio para ser uma comunidade terapêutica, de capacitação na compreensão da vida, das doutrinas, da Bíblia, uma comunidade – a família de Deus, etc. Transformamos a igreja num fim em si mesma quando entendemos que a vida cristã se resume a atividades e mais atividades freneticamente desenvolvidas na semana ou no domingo, que deveriam ser dias de celebração, descanso, e passa a ser “dia do cansaço”, da agitação, como se o cristianismo de sete dias pudesse ser vivido apenas em certos horários e dias específicos. Mesmo porque a igreja passou a ser um lugar, um estatuto, um organograma, em vez de pessoas pelas quais Cristo morreu na cruz. Sem dúvida, o estatuto, o organograma são necessários, mas também são meios, e não fins.

Para uma melhor compreensão da verdadeira índole, do legítimo espírito, da real atmosfera de uma Igreja Cristã, cremos que os quatros pontos abaixo arrolados fazem com que entendamos a diferença de uma Igreja-Família para uma Igreja-Empresa:

a) Igreja nos lares – Mudança de imagem

Ainda que muitos entendam que o local de reunião de uma igreja, em si, não determina sua identidade, hoje em dia entende-se mais e mais que a porta de entrada para a Igreja deve ser a família (por isso a ênfase nos lares como ponto de encontro da Ekklesia).

A Igreja nos lares não sacraliza as casas como “o átrio sagrado, o santo dos santos e lugar exclusivo das reuniões da Igreja”. Não se trata de uma questão meramente geográfica. A propósito, se a Igreja está fundamentada de forma correta, ela pode até se reunir em auditórios, conforme a necessidade, sem por isso sucumbir à “síndrome de edifício” ou da “CNPJlatria”.

Portanto, a Igreja nos lares não propõe uma mudança geográfica e sim de fundamento. O epicentro da Igreja nos lares é a mesa da comunhão, e não o púlpito – o relacionamento entre os irmãos, sem a intervenção e mediação de costumes e estatutos institucionais. Ela está estruturada em torno da família e não em eventos religiosos. O eixo que move a Igreja são as relações pessoais e não programas.

Quando um ímpio olha para a Igreja, ele deve ver um grupo de pessoas que convivem, se amam e se servem entre si, e não um programa com música, com atividades eclesiásticas e sermões espetaculares. Os de fora não devem enxergar a Igreja como uma empresa e sim como uma FAMÍLIA, pois o Senhor Jesus disse que a marca de nossa identidade perante o mundo é o amor que deve haver entre nós (Joa. 13:35).

A Igreja de caráter de família se opõe a uma Igreja que possui uma mensagem correta, contudo, uma expressão distorcida, pois não produz comunidade, somente programas voltados à manutenção e propósitos institucionais.

b) Igreja simples – Mudança de estrutura

É a eliminação de qualquer bagagem que não seja essencial à nossa ortodoxia – templos, rígidas liturgias, castas clericais, títulos, vestimentas especiais, credenciais acadêmicas como requisito para o ministério, etc. A Igreja Primitiva possuía uma certa estrutura sem operar como uma empresa, assim como o corpo humano possui diversos sistemas (digestivo, linfático, nervoso, etc.) sem se tornar um robô. A Igreja simples denuncia uma Igreja que se tornou uma empresa extremamente complexa, burocrática e vagarosa, e propõe um retorno à simplicidade do Evangelho em vários aspectos, principalmente no tocante à liturgia e ao ministério dos santos.

c) Igreja orgânica – Mudança de sacerdócio

Propõe que cada membro, e não somente uma aristocracia espiritual, deve exercer seu sacerdócio. A Igreja não é uma organização, cujas partes são artificialmente costuradas por estruturas humanamente fabricadas. Ela é um organismo em que, por meio de juntas e medulas bem conectadas (relacionamentos sólidos), os membros funcionam de maneira sinérgica, como os membros de um corpo biológico, e ministram entre si de acordo ao seu dom espiritual (sacerdócio universal), pois “todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef. 4:16).

A Igreja orgânica denuncia que muitos dos aparatos institucionais inibem a manifestação da multiforme sabedoria de Deus na Igreja, pois condicionam seus membros a serem meros expectadores de um evento religioso conduzido por cantores e pregadores profissionais.

d) Igreja missional – Mudança de Prioridades

A Igreja missional é um povo com uma missão. Não gira somente em torno de sua própria existência como instituição (ECLESIOCENTRISMO), mas traz em si um enfoque missiológico, chamando seus membros para fora de sua zona de conforto, desafiando-os a olhar ao seu redor e a alcançar sua comunidade por meio da generosidade sacrificial. Pretende derrubar a falsa dicotomia entre “discipulado versus evangelismo” ou “evangelismo versus ação social”, pois todas estas coisas caminham juntas, são sinônimas enquanto aplicação e prática. Propõe a demolição dos muros da religiosidade que separam os cristãos dos “pecadores”, convocando seus membros a “comerem com os publicanos” e a servirem os necessitados ao seu redor com seu tempo, talentos e finanças.

A Igreja missional dissolve os guetos sagrados e insere a Igreja em seu contexto social. Denuncia a pregação de uma mensagem individualista que se resume em salvar o homem do inferno, mas que não o ensina a manifestar o Reino de Deus entre os pecadores. Aponta para uma Igreja ensimesmada cujos santos gastam a maior parte de seu tempo enfurnados em programas igrejeiros e a maior parte de suas finanças em estruturas eclesiásticas.

Cremos que estes quatro pontos, balanceados entre si, refletem a Igreja que nosso Senhor Jesus espera que sejamos nos dias atuais: uma Igreja que nasça na intimidade dos lares, que seja simples, orgânica e missional.

Não cremos que estas nomenclaturas representem necessariamente movimentos distintos, mas refletem um mover de Deus que está se difundindo nos últimos anos na Igreja de nosso Senhor como um todo, tanto dentro como fora do institucionalismo cristão. Não existe um movimento que encapsule estas qualidades de forma exclusiva, pois o vento do Espírito sopra onde quer (Joa. 3:8). Dizemos isso porque é importante notar que até mesmo parte da Igreja institucional tem sido impactada por estas ondas de reforma e muitas comunidades de transfundo denominacional têm buscado mudanças no intuito de desenvolver uma expressão mais orgânica de Igreja.

Podemos deixar de viver na clausura de rotina “industrial” de uma Instituição, para viver o Reino de Deus sem paredes. A liberdade de Cristo nos proporciona a não frequentar igreja denominacional, e isso não nos trará maldição alguma. Os limites atemporais e universais do Espírito Santo não equivalem aos domínios ideológicos e limites espaciais de uma Instituição, apesar de pregarem tendenciosamente isso. A Igreja é um grupo de pessoas que professam e pratica a fé cristã, e se relacionam em caráter de família, congregam e se ajudam mutuamente. Denominação é só um mecanismo facilitador de congregação, mas não é fundamental. Fundamental é congregar. E congregar não é necessariamente estar inserido em uma Denominação.

Nós somos chamados para participar, não somente crer, e pronto, que estamos muito bem e obrigado. Embora nosso relacionamento com Cristo seja pessoal, Deus nunca quis que fosse particular. Não existe “cristão autônomo”. Seguir a Cristo inclui integrar-se, não apenas acreditar: somos membros do corpo de Cristo – a Igreja. Para o Apóstolo Paulo, ser “membro” da Igreja significava ser um órgão vital de um corpo vivo, parte indispensável e interconectada (Rm. 12:4-5 e 1 Co. 12:12-27).

Como cristãos, indistintamente, fomos destinados a uma vocação específica. A figuração do Corpo, também remete ao valor da congregação: se um órgão é de alguma forma desligado do corpo, ele morre. Ele não pode existir por si mesmo (Ef. 4.16). Fazer parte da igreja ajuda a desenvolver “músculos espirituais” (Cl. 2.19). O isolamento produz desvio e frieza. É fácil nos enganarmos pensando sermos maduros quando não há ninguém para nos contestar. A verdadeira maturidade se manifesta nos relacionamentos. Precisamos mais do que a Bíblia para crescer; precisamos de outros crentes. A família de Deus irá impedi-lo de decair (Hb. 3:13; Tg. 5:16-20). Isso que é congregar – relacionamentos -, e não estar inserido numa rotina de atividades eclesiásticas.

O cristianismo não existe se não houver coletividade. Essa é a essência dele. Por isso Jesus disse dois ou três. Sozinho não acontece. E sempre terão mais que dois ou três. Qualquer um que se dispor a abrir a porta de sua casa para recepcionar amigos, vizinhos, até mesmo desconhecidos que estejam sedentos de ouvir a Palavra, encontrarão mais que dois ou três. Qualquer pai, mãe e filho, que decidirem viver a vida cristã, já serão dois ou três. Talvez no início poucos, mas perseverando há de se achegar mais um, outro, etc. Qualquer um que se dispuser a visitar uma Igreja, seja institucional ou não, e lá exercitar a família de Deus também é válido. Lógico. É fundamental ter consciência que o cristão já está perfazendo o Corpo de Cristo, a Igreja, todos ligados pelo mesmo Espírito, a partir do momento em que se converteu ao Senhor. Agora, cabe ao cristão exercer sua função como um órgão desse corpo, para a saúde de sua fé. A igreja é simplesmente um grupo de amigos, como outro qualquer, que se reúne frequentemente por sintonia, prazer de ter com o outro (“o partir o pão”), e porque o Maior Amigo quer ter conosco.

O problema é que as pessoas se acostumaram a “multidões”, ao ritualismo litúrgico mecânico e sistemático, e acham que a atuação de Deus se dá pela demanda de pessoas, se dá pelo rigor e quantidade de atividades eclesiásticas. Movidos à tradição, a noção religiosa de muitos é que muita gente é igual à aprovação do Espírito; pouca gente, fracasso, desaprovação do Espírito; ou muita atividade, muitas reuniões, muitos ensaios, muitos cultos, é igual a ser espiritual. É um vício psicológico que vem prendendo a fé das pessoas a esse “cristianismo institucionalizado”. Os templos denominacionais, a rotina interna de liturgias, os protocolos e mecanismos litúrgicos, as fichinhas e carteirinhas de membros e a quantidade de membros, é para muitos a constatação de credibilidade espiritual. Sem todos esses ingredientes institucionais, acreditam que o exercício da fé cristã é impossível, não é legítimo, não é verdadeiro, não pode ser desenvolvido. Eis a prova de que acham que a vida cristã está delimitada em aderir estereótipos e praticar, aos mínimos detalhes, mecanismos litúrgicos reiteradamente. Equívoco. Não se atentaram ao exemplo negativo dos fariseus.

A nobreza do cristianismo não pode ser mensurada pelas suas construções, pelas extensões territoriais, cargos eclesiásticos, pelos métodos de processamento de culto, pelo número de atividades, eventos ou riqueza material em acúmulo. O ornato que traduz a glória de Deus na Igreja deve ser a integridade espiritual e moral, a luz que resplandece do rosto do cristão ao refletir os frutos do Espírito Santo (Gal. 6:22-23). Ela se dá na prática do evangelho, através daqueles que se propõe a viver o que Cristo nos legou, na simplicidade do dia-a-dia. A fé do ser humano em Deus, segundo as Escrituras, deve ser expressa através da retenção da Palavra de Cristo, o que expressa o amor do homem por Ele. Seja na empresa ou na entidade pública, no convívio com a vizinhança, no seio da família, na escola, na faculdade, em todos os lugares, a qualquer hora, testemunhando através de atos e palavras sua fé – principalmente no trato para com o próximo (2 Tm 4:2). A simplicidade que há em Cristo não é incentivo à mendicância, à miséria. Jamais foi. Também não é motivação para busca do acúmulo, à ganância, à ostentação (2 Co. 11:3; 1 Tm. 6:10). A proposta de Cristo é nascer de novo, mudar não só de hábitos e práticas erradas, mas de personalidade, de valores, de índole, de ânimo, de coração, à semelhança da mente de Cristo (1 Co 2:16).

Muitos pensam que sem os “cabrestos institucionais” a Igreja seria uma desordem. Mas como ser anárquica se a Palavra de Deus seria o Manual, o Estatuto da congregação? Como seria anárquica, se o governo do corpo é a cabeça, que, particularmente, é “O cabeça” – Cristo? A direção espiritual da Igreja se dá por intermédio da pessoa do Espírito Santo. A cada comunidade cristã que nasce e desenvolve, entre os membros da congregação, à medida do tempo, haverá naturalmente aqueles cujas características serão de pastor, de evangelistas, de mestres, de profetas e missionários etc. É claro que haverão cooperadores, pessoas inclinadas ao trabalho mais social, como os diáconos. Isso é a Igreja de Cristo, conforme Paulo em suas cartas nos leva a entender; como Jesus também, nos evangelhos.

As comunidades cristãs surgiam à medida que as pessoas se convertiam. Tudo no lar, na casa de uma família receptiva. Não havia institucionalização da mesma. Não havia hierarquias. Não havia cargos e títulos. Havia, sim, funções e atribuições, conforme a vocação de cada um – como nos diz as Escrituras. Havia, sim, organização daquele núcleo cristão pelo amor, humildade e simplicidade em não almejar prestígios e glórias humanas. Não havia cooptação de recursos para a “fundação” de comunidades cristãs ou manutenção de edifício (como na Antiga Aliança, para cuidar do templo físico). Na Nova Aliança, o foco do cuidado era outro. Levantavam coleta e destinavam-na a pessoas carentes e necessitadas, construindo templos para o Espírito Santo (cristãos) através do amor de Cristo. O fim sempre foi o auxílio de pessoas, de irmãos, e não manutenção de um edifício ou uma construção específica de uma “igreja”.

Ainda que, no início, houvesse lutas internas em razão de vaidades e imaturidade entre os discípulos de Jesus pela busca por prestígio, sentimentos próprios do velho homem, foram totalmente exterminados pela cruz de Jesus. O que sobrou foi que o maior (ou o que se acha maior), sirva o menor (Mat. 23:8-11). A Bíblia, por essa passagem, não dá margem a nenhuma espécie de hierarquia secular. Não havia hierarquia na vida da igreja, havia apenas irmãos mais experientes que poderiam orientar, irmãos menos experimentados. Trata-se de orientação apenas, mas nunca ordens; trata-se de amor e não de domínio; trata-se de vida e não de posição; trata-se de relacionamento entre amigos, e não entre superiores e subordinados.

Todos os membros do Corpo de Cristo estão sujeitos apenas à Palavra de Deus, nada além, nem aquém disso. Qualquer tipo de regulamento, norma, obrigatoriedade ou disposição humana causará grande dano ao Corpo, especialmente quando utilizadas para controlar os membros por irmãos que não conhecem a cruz do Senhor. O controle dos membros foi transferido para o controle do Espírito Santo, inspirando individualmente cada membro na observância dos valores do Reino de Deus, como humildade, amor, simplicidade, sinceridade, justiça, generosidade, como meios de se encontrar a harmonia, equilíbrio de uma família de Deus.

O cristianismo, apesar de ter sido, em algumas ocasiões, divulgado em sinagogas e templos pagãos, consolidou-se nos lares, no ambiente doméstico. Ali as pessoas iam chegando e recebendo a mensagem do Evangelho, crendo e se convertendo. A liderança das comunidades cristãs espalhadas na Ásia Menor, bem como nas demais regiões circunvizinhas, e posteriormente nos confins do Império, incluindo Roma, não era nem de longe o que se vê após a primeira sistematização (catolicismo), onde, de maneira “adaptada”, deu-se cabo de certo sincretismo com religiões egípcias e babilônicas.

Seria o governo do Espírito Santo, sobre um grupo de pessoas que se dedicam a praticar o cristianismo tal qual é na Palavra, na singeleza de uma casa, na simplicidade de um imóvel locado por conveniência, destinado tão-só para reunião dos irmãos, sem protocolos e burocracias litúrgicas obrigatórias para manter as aparências, insuficiente? Por quê? Por que seria?

Precisaria a Igreja cristã de uma figura humana travestida em mantos excêntricos ou terno Armani, gravata Ferragamo e mocassim Mr.Cat, mitra na cabeça ou cabelinho penteado no gel, cetro de ouro empunhado ou Bíblia tamanho “GG” debaixo do braço, seguranças armados, carros blindados, hospedagem de luxo? Essa seria a liderança do cristianismo? Não, sinceramente, não dá pra conceber.

O Espírito Santo reside não apenas em um líder escolhido num “conclave”, não apenas nos eleitos em assembléia, empossado sob flashes de câmeras e cobertura da mídia, nem tampouco pelos ordenados por “revelação” do líder, debaixo de chororô de senhoras e flashes de celulares dos achegados, para distribuírem as fotos por e-mail. O Espírito Santo reside (habita) em todo e qualquer cristão que o receba tal vocação. Uma pessoa cujo comportamento traduz o fiel testemunho, à altura do evangelho, está apta para receber do Espírito toda direção para dirigir uma congregação de cristãos, estejam eles onde estiverem.

Não há tanta dificuldade como achamos. A dificuldade somos nós mesmos por causa de nossas idiossincrasias e tradicionalismos religiosos incutidos em nossa mente, até mesmo por nossa timidez. Cristo trouxe algo “complicadamente simples” e depois o homem tornou a coisa “simplesmente complicada”. É mais que bom nos reunirmos em grupos, é fundamental para a nossa fé. Orarmos juntos, segurarmos as mãos, etc.

O problema é que falta atitude e compromisso em nós mesmos ou mesmo humildade, singeleza e justiça. Estamos viciados na institucionalização da Igreja, sem a qual a fé de muitos não se sustenta, pois precisam estar sob o cabresto e muleta de um sistema que dite regras e rotinas para nos sentirmos seguros consigo mesmos e satisfatoriamente preenchidos em nosso psicológico. Precisamos de hora, lugar e metodologias delimitadoras para “praticar” o cristianismo. Isso tudo é ilusão. É oco. Irrevelevante. A fé cristã é muito mais simples do que a jornada semanal traçada e exposta no flanelógrafo ou distribuída pore-mails, pois a Igreja de Senhor jamais precisou desse esquema; embora elas, as denominações, não sejam necessariamente um mal, desde que, claro, não se coloquem maior do que Jesus e a Igreja, o que vem fazendo. É preciso termos a compreensão de que com Cristo, – com ou sem Denominação – seremos SALVO. Sem Cristo – com ou sem Denominação – seremos CONDENADO.

Podemos, sim, relacionarmos com todo tipo de gente. Podemos dar a paz de Cristo a todos quantos sabemos que servem a Jesus, em denominações ou não. Podemos visitar pessoas, desde católicas, umbandistas e evangélicas, com um único propósito – pregar o evangelho. Qualquer um que sair de casa e começar a visitar enfermos em hospitais, velhos em asilos, presidiários, comunidades carentes, irá encontrar dois ou três dispostos a viverem a fé cristã. Qualquer um que vive em vida social estiver despido de qualquer timidez ou tradicionalismo, pode convidar um amigo de trabalho, um colega de faculdade, um amigo, um primo próximo, enfim, para falar sobre as coisas do Reino de Deus, estudar a Palavra, adorar a Deus com cânticos.

Muitos cristãos, tudo que faziam dentro de quatro paredes denominacionais, fazem hoje fora de lá: cantam louvores, pregam, oram, conversam com pessoas, ceiam, batizam, etc. Sem o formalismo de terno e gravata, sem dias e horários rigorosamente cronometrados, sem cartilha denominacional, sem a pompa e badalação litúrgica, somente vivendo o evangelho bíblico, eterno, simplesmente, na prática.

Há alguma afirmação bíblica categórica de que haja necessidade de tudo isso ser feito em um lugar “oficial”, tais quais as “igrejas oficiais” em nossa sociedade, construídas apenas com esse fim? Qual a restrição de se praticar isso na simplicidade da minha casa ou na casa de outrem? Não foi assim nos três primeiros séculos da era cristã?Quem mandou ser diferente: Deus, Constantino, o Papa, o Pastor, eu, você?

1. Pra que o cristianismo exista tem que haver cristãos.

2. Pra que se hajam cristãos, tem que haver conversão.

3. Pra que se haja conversão tem que haver pregação do Evangelho.

4. Pra que o Evangelho seja pregado tem que haver um transmissor e um receptor.

E onde está a necessidade de edifícios ou um sistema para isso, uma vez que o pregador possa fazer sua pregação em qualquer lugar e o ouvinte recebê-la? E onde está a necessidade da congregação de cristãos está necessariamente reunida no local apelidado de “Casa de Deus” para receber bênçãos? A vida cristã é para ser vivida, de maneira prática, e não teorizada entre quatro paredes, sob um sistema de atividades que beneficia mais a instituição do que a própria aplicabilidade da Palavra. Se necessário (como no caso dos “encavernados” à época de Roma), que assim seja. Mas não é regra. Ainda assim há de ser analisado: o fato de refugiados, que fizeram de uma caverna um abrigo pra praticarem a fé cristã daria margem para que o cristianismo seja entendido como “uma indústria de edifícios”?

O compromisso do cristão está diretamente atrelado a Deus e Sua Palavra. Nunca aos interesses de um grupo, partido, facção ou denominação. O cristão de fato está fora (desligado em espírito) tanto do catolicismo quanto do protestantismo, ou de qualquer outro credo institucional. Não é nem um, nem outro. Não carrega a bandeira institucional, nem estar submetido a um sistema, embora não quer dizer que não congregue numa denominação, mas sem ser “servo” dela. Cristão que se relaciona com todos, em prol de Cristo.

Enquanto nós tivermos o entendimento de que Igreja Cristã é um edifício ou um sistema religioso, então teremos a manutenção dentro do nosso consciente desse sistema, implementado pelos “católicos”, revisado pela vasta maioria de “protestantes”, ambos em apelos místicos, geográficos e supersticiosos, nos seus mais variáveis interesses.

O afastamento das Escrituras é que corrobora tais grupos, cujos membros em sua grande maioria desconhecem a mensagem cristã. Sabem apenas fatos, relatados nos cultos, com pregações e sermões tendenciosos, convergidos quase sempre a objetivos institucionais, partidaristas, defendendo a “sua placa”, o crescimento de sua ideologia própria (baseada nas interpretações próprias da Bíblia). Os que chegam a um conhecimento do Evangelho, através das Escrituras não conseguem mais conciliar os disparates de um sistema, sua fé desvencilha dessa “muleta existencial” para viver a vida cristã, sem a hipocrisia política, religiosa, em manter as aparências do sistema.

A Igreja deve estar disseminada na sociedade, tal qual era. A minha casa e a tua deve ser a igreja, a princípio. O bom é se pudermos nos reunir com várias pessoas periodicamente em nosso lar e ali pregar o evangelho, transmitindo a fé cristã, praticando-a, e assim fazendo discípulos, para que deem continuidade em outra rua, em outro bairro, em outra cidade, em outro estado, em outro País. Assim o cristianismo propagou. Por que atualmente consideram isso “ultrapassado”?

Há quem deva pensar que uma vida cristã fora de um sistema religioso é “utopia”. Discordamos incisivamente de ser um cristão, conforme as Escrituras, seja assim, “fora da realidade”. O que é a realidade? O catolicismo? O protestantismo? Ou Jesus Cristo (Joa. 14:6)?

O conjunto de erros ao longo de séculos, confunde a muitos, e para esses confusos passa a ser verdade, mesmo não sendo. Por isso devemos insistir em pregar a Verdade: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (Joa. 17:17)

—————————————————

Referências:

1.      Igrejas nos Lares – http://www.igrejasnoslares.com.br;

2.      Missão Cristo em Vós – http://www.cristoemvos.com.br;

3.      Grupo News – http://www.gruponews.com.br;

4.      Bíblia NVI;

5.      Carta à Diagneto;

6.      E outras obras literárias;

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s