Elementos de Igrejas Abusivas

Ronald M. Enroth, pastor americano, resolveu acompanhar algumas pessoas que se desligaram da Jesus People USA, um grupo religioso dos Estados Unidos, e coletou informações sobre como os pastores faziam pressão psicológica para impedir que o povo deixasse sua congregação. As atitudes usadas por eles foram marcadas como “abuso espiritual” e foram relatadas em um livro assinado por Ronald, que também é sociólogo de religião.

David Henke, a seu turno, outro pastor e estudioso cristão, fundador do grupo cristão filantrópico Watchman Fellowship, de 1979, através de um artigo publicado no site da entidade, também apontou pontos característicos de Igrejas ou sistemas religiosos que predominam atitudes sectárias e abusivas. O Reverendo Henke, devido a sua vasta bagagem, se tornou um dos mais conceituados especialistas no tratamento psicológico e evangelístico de pessoas oriundas das Testemunhas de Jeová, Mormonismo ou outros grupos religiosos em que há a predominância do controle da mente, o abuso espiritual e o legalismo, de tal modo que também é válido publicar seus apontamentos.

Apesar de serem duas pesquisas realizadas nos Estados Unidos perceberemos, no fim da leitura, que muitas dessas atitudes são aplicadas nas igrejas brasileiras para impedir que os membros se desliguem e partam para outros ministérios. Para não dividir os dois artigos em um mesmo espaço, compilamos os pontos, em que cada pastor elencou, em apenas uma lista a fim de facilitar a leitura e compreensão do leitor.

1. Autoridade Extra-bíblica

Geralmente os grupos abusivos apresentam uma nova autoridade doutrinal, superior ou paralela à Bíblia Sagrada para sua fé e prática. Esta autoridade pode apresentar-se em forma de livros ou revelações ou até mesmo na pessoa do líder da seita. Eles afirmam que Deus tem falado e registrado palavras diariamente em matéria de doutrina e prática além das Escrituras. Reivindicam a autoridade de seus ensinos em alguma revelação distinta das claras assertivas da Palavra de Deus. A maioria deles afirma respeitar os ensinamentos da Bíblia. Muitos chegam mesmo a atribuir inspiração divina às Sagradas Escrituras. Logo, porém, anun­ciam a sua real confiança em alguma revelação subseqüente, o que, na verdade cancela o ensino da Bíblia em favor de algo novo e supostamente mais autoritativo. As igrejas que são guiadas e fundamentadas doutrinariamente em supostas revelações e visões divinas tendem a ferir as pessoas, porque muitas delas tendem a se tornarem reféns das doutrinas, uma vez que é impossível essas doutrinas serem aferidas e questionadas à luz da Bíblia. Ou adere e obedece à revelação do líder, ou será reputado como alguém de nível inferior de espiritualidade que merece ser excluído ou abandonado afetivamente.

2. Relativização da Bíblia

Há muitos grupos que não reivindicam novas verdades, mas interpretam as verdades bíblicas ao seu bel prazer. Para esses, a Bíblia lhes pertencem e ninguém pode entendê-la fora do padrão estabelecido por eles. O que eles entendem de Bíblia é tido como verdade, ao passo que, interpretações fora do entendimento do líder são heresias e apostasia. Muitos dessa categoria apoiam-se em algumas passagens da Bíblia apenas por conveniência, pois é mais fácil enganar um indivíduo que já está familiarizado ainda que nominalmente com este livro. Há necessidade entre esses grupos de irem além do que está escrito nas Sagradas Escrituras, buscando novas revelações. Essas “novas verdades”, no entanto, acabam por se chocar frontalmente com a palavra escrita de Deus e às vezes com suas próprias revelações.

Para eles o evangelho precisa ser completado, atualizado, com suas revelações místicas que somente eles possuem e mais ninguém. O que o líder ensina é aceito sem muito questionamento e nem é verificado nas Escrituras se as coisas são mesmo assim. Encontram justificativas para qualquer coisa. Estes grupos geralmente são fundamentalistas e superficiais em seu conhecimento bíblico. Os estudos de autoria deles são colocados como ao nível das Sagradas Escrituras, quando não atribui a mensagem primária bíblica como “letra” e as interpretações de seus líderes como “revelação de Deus”. Igrejas abusivas não ensinam, satisfatoriamente, a Palavra de Deus, nem há uma ênfase sobre os valores pregados por Cristo, e tampouco trata de fazer o neófito um discípulo de Jesus, senão que, pelo contrário, doutrina-lhe com fábulas e ensinos que enchem o intelecto de supostas “grandes revelações” para fazer dele um analfabeto bíblico ou um fanático legalista, totalmente embevecido com as obrigações da instituição, inflexível incapaz de mostrar a vida de Jesus ao pecador.

3. Liderança Autocrática

A característica mais evidente de um sistema religioso abusivo, ou de um líder abusivo, é a ênfase excessiva em sua autoridade. Normalmente o grupo se diz ter sido estabelecido diretamente por Deus, e, portanto, seus líderes se consideram como tendo o direito de comandar seus seguidores. Tal autoridade, supostamente, é derivada da posição que ocupam. Ainda que outros termos sejam usados, essa posição, nos grupos abusivos, é de poder, e não de autoridade moral. Àqueles que se submetem incondicionalmente são prometidas bênçãos espirituais. A eles é dito que devem se submeter completamente, sem o direito de questionar os líderes; se os líderes estiverem errados, isso é problema deles com Deus, e Deus ainda assim abençoará àqueles que se submetem incondicionalmente. É muito perigoso, em qualquer ministério, quando o líder não pode ser questionado. Líderes de igrejas abusivas não prestam contas a ninguém, nem eles admitem suas falhas ou erros, em vez disso, eles alertam os seus membros a não corrigirem os líderes porque eles “não devem tocar o ungido de Deus” ou “não olhar para homem, mas para Jesus”. O líder é visto como sendo irrepreensível e não pode ser contrariado. Os membros têm uma inadequada lealdade e respeito pelo líder. O líder, por sua vez, tem, verdadeiramente, uma relação patronal com os membros da igreja, até mesmo desumana e aviltante em alguns casos. Discordar do líder é discordar do Espírito Santo.

A hierarquia é em forma de pirâmide, e geralmente bastante rígida. O líder procura tomar o lugar de pais, mães, como educador moral. Os membros agem como filhos dependentes buscando ganhar aprovação dos líderes. Esse tipo de liderança vai além da autoridade dada por Deus e manipulam seus membros. É normal nestes pastores, líderes ou sacerdotes farsantes fazer isto porque em realidade sua covardia faz com que não se atrevam a confrontar às pessoas cara-a-cara. Questionar a um destes pequenos “pontífices” ou pensar diferentemente deles, ainda que em pequenas questões doutrinais, significa a expulsão da congregação e a ruptura do contato com o resto dos fiéis, até mesmo familiar. Em muitos casos não é permitido chamar alguém com cargo importante pelo nome (seria uma desonra), mas sim pelo cargo que ocupa, como por exemplo, “pastor W”, “ungido Z”, “bispo X”, “apóstolo Y”, etc. Alguns afirmam crer em “teocracia” e se inspiram nos líderes do Antigo Testamento. Dizem que democracia é do demônio, até no nome.

4. Satisfação Exterior

O sistema religioso abusivo procura sempre manter uma aparência de santidade. A história do grupo ou organização quase sempre é distorcida para se dar a impressão de que ela tem um relacionamento especial com Deus. Tais lideranças procuram sempre criar no imaginário dos membros aspecto de mito, sobre si e a sua igreja. A história do grupo ou organização geralmente é distorcida para dar a impressão de que têm um relacionamento especial com Deus. O caráter duvidoso de tais lideranças é negado ou encoberto para que sua autoridade não seja questionada, perca o crédito e para manter as aparências. Padrões legalistas de pensamento e comportamento, impossíveis de serem mantidos, são impostos aos membros. O fracasso em manter tais padrões é usado como constante lembrete de que eles são inferiores aos líderes, e, portanto, devem se submeter a eles.

A religião abusiva também é paranóica. Apenas uma imagem positiva do grupo é apresentada àqueles que não fazem parte dele, porque a verdade sobre o sistema religioso abusivo seria obviamente rejeitada se fosse conhecida. Isso é justificado com base na alegação de que pessoas “mundanas” não entenderiam a visão da igreja, e, portanto, eles não têm o direito de saber. Isso leva com que membros escondam das pessoas que não são membros algumas doutrinas, regras e procedimentos internos do grupo. Principalmente os líderes que mantêm segredos que não divulgam às suas congregações. Esse sigilo está baseado na desconfiança geral dos outros, porque o sistema é falso e não pode resistir a escrutínios.

5. Complexo messiânico

Líderes que cometem abusos contra os membros de sua igreja geralmente estão obcecados por uma visão missionária. Estão convencidos que receberam um chamado de uma visão divina, e em nome dessa visão passam por cima de tudo e de todos. Quando o líder entende que recebeu uma visão de Deus para sua igreja, tudo passa a ter valor inferior, inclusive os seres humanos. Tudo e todos na igreja devem ser direcionados para a satisfação da visão do líder. Nada pode ser feito se estiver fora da visão. Quem não quer participar da visão começa a ser discriminado e colocado como rebelde. A mais importante missão da Igreja de Jesus, que é pregar o evangelho começa a ser colocado em segundo lugar, de forma que a visão e os interesses da instituição do líder tornam-se prioridades para a fé.

As pessoas que estão na igreja para receberem cuidados pastorais, vão sendo esquecidas, pois a instituição se torna o primeiro plano. Muitas vezes o líder está tão embevecido pela pressa de incutir na cabeça das pessoas a sua visão que nem nota que está ferindo pessoas. Começa a separar o “joio do trigo”. Quem aceita a visão é “trigo”, quem não aceita é “joio”, e passa a ser tratado diante de toda congregação como rebelde, desobediente e infiel. As humilhações em público passam a acontecer naturalmente. Isso é feito para que outros não trilhem o mesmo caminho do “rebelde”. E assim muita gente se cala com medo das consequências ou por não ter coragem de desafiar o líder.

6. Terrorismo psicológico

Outro modo muito utilizado de abuso contra os membros de uma igreja é colocar o medo no coração das pessoas. O pastor começa a pregar coisas do tipo: “Se você não fizer ‘isso e assado’, Deus mandará o devorador, o gafanhoto para destruir o que é seu”; “A rebeldia é como pecado de feitiçaria” e outras coisas do gênero. Constantemente, o uso de versículos fora de contexto, neste caso, são utilizados convenientemente para validar as estranhas doutrinas da liderança.  Ensinam que quando alguém comete um pecado ou não obedece aos costumes e dogmas do grupo está abrindo brechas para Satanás agir em sua vida, está dando “legalidade ao inimigo”.

Parece que qualquer deslize que se comete, é como se desse uma senha secreta para o diabo apropriar-se da pessoa e de seus bens. É uma doutrina esdrúxula que só serve para manter o seguidor cativo à igreja. Que deus-pai é esse que a qualquer pequeno erro de um filho seu, ele o entrega a Satanás? Também não tem base bíblica à atitude de alguns líderes que querem prender as pessoas na sua igreja com ameaças de saírem “debaixo de maldição” se mudar de igreja. Numa igreja saudável com um pastor equilibrado as pessoas podem mudar para outra igreja sempre que assim o desejarem. A pessoa é livre para servir a Deus onde se sentir melhor.

7. Rejeição de Discordâncias

O sistema religioso abusivo, por não ser sólido nas verdades da fé cristã condensada nas Escrituras, não pode permitir questionamentos, criticidade ou discussões aberta sobre questões doutrinárias ou administrativas do grupo. A pessoa que questiona se torna o próprio problema, em vez da questão que ela levantou. As resoluções sobre qualquer questão vêm diretamente do topo da hierarquia. Qualquer tipo de questionamento é considerado como desafio à autoridade. O pensamento autônomo é desencorajado, sob a alegação de que ele leva à dúvida, que por sua vez é vista como sendo falta de fé em Deus e em seus líderes ungidos, que são inspirados pelo Espírito Santo.

Desse modo, os seguidores do líder procuram suspender e inibir seus próprios pensamentos de dúvidas sobre doutrinas e decisões de líderes, por medo de que possam estar questionando Deus. Não existe espaço para o debate teológico, no máximo, limitado somente àquilo instituindo como verdade pela liderança geral. A interpretação seguida é a dos lideres, cabendo ao adepto a única opção e o dever de consentir com elas. É praticamente a doutrina da infalibilidade papal. Qualquer critica é sinônimo de rebeldia, insubmissão, etc. Este é considerado um dos pecados mais graves discordar do sistema religioso. Outros pecados morais não recebem a intensidade de tal tratamento. Quem pensa diferente é convidado a se retirar. Os dogmas são sagrados.

8. Perfeccionismo

Todas as bênçãos, nos sistemas abusivos, vêm através da desempenho próprio. O fracasso é seriamente condenado, e, portanto, a única alternativa é a perfeição nos requisitos exigidos pela liderança. O membro, enquanto crer que esteja tendo sucesso em manter os requeridos padrões, normalmente exibe orgulho, elitismo, e arrogância. Aqueles que fracassam nos seus esforços são vistos como apóstatas, fracos, e são normalmente descartados pelo sistema. Oferecem uma falsa esperança aos seus adeptos que nunca sabem o quanto fizeram para merecer a benevolência de um deus, cujo caráter forjado pelo grupo abusivo, foge radicalmente do apresentado na Bíblia. Para o adepto só existem leis a serem cumpridas seja elas de procedência bíblica ou mesmo criadas pela organização da qual pertencem. Essas leis e mandamentos particulares da igreja são a muleta existencial de um adepto, de tal maneira que ele acaba adquirindo uma noção religiosa de que à medida que se submete ao rigor dessas leis, mais próximo e perfeito em Deus ele ficará. Entretanto, quando os tropeços e fracassos inevitavelmente ocorrem, seja por acusação ou intervenção do líder, seja por limitações humanas, o membro muitas vezes naufraga na fé por sentimento de culpa e inferioridade.

9. Desequilíbrio

Os grupos abusivos têm de se distinguir de todos os outros grupos religiosos para que possam alegar serem únicos e especiais para Deus. Isso normalmente é feito através de uma ênfase exagerada em posições doutrinárias menos centrais (como por exemplo, profecias e revelações extra-bíblicas), ou através de legalismo extremo, ou uso de métodos peculiares de interpretação bíblica. Dessa forma, suas conclusões e crenças peculiares são exibidas como prova de que são únicos e especiais para Deus. Para isso, impõem sobre as pessoas estas determinações, e ai daqueles que não se adequarem a tal exigência. Sacrificam emocionalmente as pessoas, até mesmo a castigam, com boicotes, caso a representatividade do membro não seja satisfatória para a imagem do grupo.

10. Isolacionismo

O grupo possui um sentimento de superioridade. Acredita que possui a melhor revelação de Deus, a melhor visão, a melhor estratégia.  Eles se separam da Igreja de Cristo como uma elite espiritual, crendo que eles sozinhos tem um chamado especial e um status com Deus. De sorte que nutre um verdadeiro ódio ou rejeição contra as igrejas estabelecidas que pregam o conceito histórico-ortodoxo de crença, muito em função da convicção de superioridade. Eles têm uma mentalidade polarizada de “nós contra eles”, o que causa a separação deles de outros na Igreja e sociedade. Eles zombam e ridicularizam os crentes que diferem deles. Eles desonram o Corpo de Cristo, vendo todas as outras denominações e ministérios como errados. O argumento quase unânime entre elas é que as igrejas se afastaram das verdades essenciais e se enveredaram para práticas não espirituais. No caso de grupos mais exclusivistas, excusa-se a união com outras igrejas da mesma fé cristã, alegando que o pretenso “ecumenismo” não pode trazer nada de bom, quando as uniões de igrejas servem (ou deveriam servir) para se ajudar e não para se controlar.

Deste modo, o líder do grupo, diante de suas arbitrariedades e irresponsabilidades, não terá que dar conta a ninguém e tampouco seu reinado será ameaçado por questionamentos de pessoas não doutrinadas nos valores do grupo. Quando há relação com outros ministérios, se dá tão-somente com o objetivo de divulgar a marca (nome da denominação), arrebanhar seus membros e na pretensão de levar um suposto “avivamento” para os outros, ou até para arranjar publico para seus eventos. Mas, em regra, o relacionamento com outros ministérios é desencorajado, quando não proibido. Em alguns grupos no louvor são tocadas apenas músicas do próprio ministério. Fugir desse padrão é uma afronta a “fé verdadeira” do grupo, o que causa abusos e perseguições internas ao membro “desobediente”.

11. Exclusivismo

Apesar da Bíblia ensinar que a salvação e a verdade só se encontram em Jesus, as igrejas abusivas invertem essa verdade e apregoam que somente sua organização é a mais próxima da verdade, tendo todas as demais apostatado da fé. É o monopólio da fé e da verdade. Para a pessoa ser salva e abençoada satisfatoriamente é preciso pertencer ao grupo. Quase sempre, tais igrejas apelam para um discurso batido, de ter a “última revelação do Espírito Santo” ou a “Unção do Espírito Santo” mais evoluída. Outro recurso, é tachar às demais igrejas de frias, apóstatas, religiosas, liberais, libertinas etc. Esses grupos são extremamente falsos moralistas. Querem ver defeito em tudo e adjetivar como pecado tudo, para se reafirmarem como os melhores. Só eles são os “puros” e só o que eles praticam é a “pureza” com respeito à Sã Doutrina. É por isso que dificilmente um membro que queira sair da mesma atrever-se-á a procurar conselho em outra igreja, inclusive ainda que esta seja verdadeiramente cristã. No fundo, as igrejas nocivas incutem uma idéia nos seus adeptos que sair da grupo supõe, neste sentido, a negação da verdade e do bem ou fora de lá não se pode ser salvo ou viver em plenitude a fé cristã, ainda que não se diga abertamente.

12. Elitismo Espiritual

É passada a ideia de que quanto maior o nível que uma pessoa se encontra na hierarquia da instituição, mais esta pessoa é espiritual, tem maior intimidade com Deus, conhece mais a Bíblia, e até que possui mais poder espiritual (unção). Isso leva à busca por cargos. Quem estar em maior nível, geralmente sobrepuja os que estão abaixo. Muitas vezes, as indelicadezas dos superiores hierárquicos já se tornaram algo comum e aceitável no meio de uma igreja apegada a hierarquias, tanto por parte de quem aplicada, quanto de quem sofre, ambos aceitando com maior aceitação. Evidentemente, só quem paga o preço são os que estão abaixo na escala hierárquica. Também, em algumas igrejas o número de discípulos ou de células é indicativo de espiritualidade. Inclusive, nelas, existem camisetas ou trajes especiais para diferenciar aqueles que são discípulos do pastor ou os mais espirituais. Quanto maior o serviço demonstrado à denominação, ou quanto maior a bajulação, mais rápida é a subida na hierarquia.

13. Lavagem Cerebral

 As igrejas abusivas retiram o senso crítico de seus adeptos não permitindo que eles pensem por si mesmos deixando que o líder ou o grupo pensem por eles. Toda iniciativa própria, todo vislumbre de personalidade, espírito crítico, lógica, razão, moral, reflexão, critério e sentido comum são agressivamente combatidos e apagados da mente do adepto por meio de um doutrinamento permanente. O adepto submetido a tal recrutamento adquire uma linguagem especial, um tom de falar plastificado, gestos, formas de se vestir próprias do meio, etc. Os adeptos são doutrinados para uma “regressão à infância”: é mais cômodo não pensar e deixar-se dirigir por um sistema de regras e ditames institucionais ou conforme as ordens do líder, do que não batalhar por uma fé e relação própria com o Senhor.

 Subservientemente, se aceita a fé do líder como verdade absoluta. As atitudes próprias não existem mais, mas apenas atos automáticos, repetitivos e padronizados próprios do sistema. O adepto termina convertendo-se num escravo, numa marionete nas mãos de seu líder. As técnicas são variadas, mas sempre persuasivas, indo das cessões de isolamento da família até jejuns forçados sem tempo de descanso, sendo que neste ínterim é o membro do grupo bombardeado com jargões, sentenças inverificáveis, frases de efeito, literaturas da seita, estudos e mais estudos até a exaustão psicológica. Assim como o uso do próprio mecanismo do medo e da culpa, que, como sabido, são eficazes fontes de controle e reconstrução cognitiva.

14. Controle da Vida

Líderes farsantes gostam muito de se converterem num substituto dos pais, amigos, marido ou mulher. Querem dar pitaco em tudo na vida dos outros, como fossem os donos da verdade e os portadores de todas as respostas e soluções para a vida. Esses líderes realmente se acham muito bons. Até em razão do ensino equivocado de acharem que receberam uma “unção de sabedoria” do Espírito Santo, acreditam, infantilmente, que de fato sabem o caminho da verdade e da retidão para a vida de suas ovelhas. Acreditam que devem controlar a economia, a emoção, os sentimentos, de cada uma das ovelhas. Metem-se em áreas particulares da vida das pessoas. Controlam com quem podem namorar, se podem ou não ir para a praia, se devem ou não se mudar, roupas que podem vestir, viagem que podem fazer, matricular-se ou não é certo curso profissionalizante, comprar ou não tal veículo etc.

É controlada inclusive a presença nos cultos. Faltar em algum evento por motivos profissionais ou familiares é um pecado grave. Esses homens sempre gostam de centralizar todas as decisões pessoais de seus adeptos em si, desejando saber os pormenores da vida de cada um. Fazem isso não só a título de satisfação pessoal, mas também por questão estrategicamente manipuladora, na preservação de seu “trono”.  Nessas igrejas, pode-se pregar algo parecido com a Bíblia, mas, depois, na vida eclesial ou na vida corrente, o líder tratará de que todos pensem como ele e tenham seu mesmo ponto de vista (o único válido e tido como “bíblico”). Usa-se o púlpito e os ensinos da Biblia para manipular a congregação e impede que os membros tenham critério próprio ou uma fé pessoal (nada mais afastado dos valores dos heróis da reforma contra o papismo de séculos passados).

15. Saída Traumática

Quem se desliga de um grupo destes geralmente sofre com acusações de rebeldia, de falta de visão, egoísmo, preguiça, comodismo, etc. Os que permanecem no grupo são instruídos a evitar influências dos rebeldes, que são desmoralizados. Os desligamentos são tratados como uma limpeza que Deus fez, para provar quem é fiel ao sistema. Não compreendem como alguém pode decidir se desligar de algo que consideram ser visão de Deus. Assim, se desligar de um grupo destes é equivalente a se rebelar contra o chamado de Deus. Muitas vezes relacionamentos são cortados e até famílias são prejudicadas apenas pelo fato de alguém não querer mais fazer parte do mesmo grupo ditatorial. Até membros da família, professantes da fé cristã, rompam toda relação uns com os outros só pelo fato de ter saído da “igreja verdadeira”. Quem abandona a igreja dessa natureza, ainda que seja para integrar-se numa congregação cristã, é rebaixado ao nível mais baixo de consideração, tornou-se um “religioso”, “nunca foi verdadeiramente um dos nossos”. Assassina-se-lhe duas vezes, por um lado com a expulsão e, por outro lado, com as cruéis e desapiedadas palavras que lhe seguem impós, sem que lhe dê o direito de defesa.

A condenação e temor que se impõe sobre quem trata de deixar a pseudo igreja podem lhe causar graves transtornos emocionais. Quem está inserido num grupo desse nível de espiritualidade é submetido a uma fortíssima pressão quando especula deixá-lo. Até porque, além de serem assombrados com maldições do diabo e ameaças até mesmas divinas, os amigos e familiares que lá permanecem são também ameaçados (da mesma forma) e doutrinados para que não tenham nenhum tipo de contato com o “desviado” ou “caído”. O grupo já não mais respeita a pessoa nem pela obediência aos princípios bíblicos, tampouco a nível moral ou legal, mas se  refere o dissidente sempre com adjetivos pejorativos e rótulos como “traidor”, “morto espiritualmente”, “apóstata”, “herege” “ovelha negra”, sempre como um elemento perigoso e daninho, nesse viés execrável e odioso.

16. Misticismo exagerado

As lideranças abusivas a fim de as profecias, revelações e visões existem em abundância. Para conseguirem impressionar seus membros, os líderes de seitas dizem receber supostas revelações de Deus sobre certos acontecimentos históricos – mundiais, escatológicos ou envolvendo o próprio grupo, que com o passar dos anos, se revelam fraudulentos provando ser o tal profeta um falso profeta.

17. Semântica Enganosa

As seitas a fim de enganarem as pessoas, usam uma terminologia cristã, mas que na prática se revela totalmente falsa. Dizem crer nos mesmos pontos de fé dos cristãos ortodoxos apenas para uma aproximação pacífica visando sempre o proselitismo desleal. No entanto, um exame mais atento, porém, revela que esta igualdade é apenas aparente e nominal.

18. Vulnerabilidade doutrinária

As seitas possuem uma teologia volúvel. O que era verdade ontem já não é hoje. Com o passar dos anos as inconsistências das aberrações doutrinarias apregoadas por elas se tornam um tanto obsoletas entrando muitas vezes em contradição com os ensinamentos atuais de seus líderes, ai então, faz-se necessário o “camaleão mudar de cor”. Algumas até colocaram em seu bojo doutrinário o ensinamento de que é normalmente aceitável que sua teologia esteja em constante mutação. Os jargões geralmente empregados para justificarem isto são: “lampejos de luz” (Testemunhas de Jeová), “verdade presente” (Adventista), “nova luz” (Mormons).

19. Ênfase na economia

A economia sempre é pauta de reuniões e discursos numa igreja de um líder abusivo.  Não se contentam com as contribuições voluntárias dos fiéis, mas sempre estão a pedir mais do que o necessário, criando circunstancias que levam invariavelmente o fiel a dar mais do que estava planejado e possível. Quando não apelam para políticas de arrecadação mais escrachadas embalada pelos discursos da “bênção do dar” e da “maldição do não dar”, jeitosamente, criam eventos periódicos cuja participação exige o prévio pagamento de taxas de inscrição, que muitas vezes fogem do valor razoável; eventos esses que são vendidos como “especiais” para provocar o entusiasmo nos fiéis.  Outra fórmula bastante utilizada por muitas igrejas desse calibre é fazer descaradas políticas de contenção de custos.

Gostam de persuadir seus fieis a além de doarem suas contribuições, como dízimos que serviriam, em tese, para os gastos com o templo local, estimulam-lhes que contribuam mais ainda financeiramente para a compra de produtos de limpeza, equipamentos de som e instrumentos musicais, doações para extras para certas políticas e eventos que muitas vezes não têm nada com nada. Além do mais, algumas dessas igrejas, ainda na política de contenção, abstêm de qualquer contratação de trabalhadores remunerados para a manutenção de seus patrimônios, zeladoria ou coisas do tipo. Esses espertalhões gostam de arregimentar seus fiéis, apelando para discursos como “trabalhe para a igreja que Deus vai abençoar”, para que, em os adeptos tempos livres, se dediquem, agora, aos serviços da instituição, seja de cunho braçal ou administrativo. Dá-se mais importância a isto que a pregar sobre a santidade, valores cristãos e coisas semelhantes.

20. Vitimismo

Identifica-se um líder abusivo por fazer-se a si mesma vítima de uma pretendida religiosidade do resto das igrejas do mercado religioso. O resto do mundo lhe persegue, não lhe compreende, especialmente se faz notar que o líder do grupo é alguém incompreendido. O dirigente desta igreja é uma vítima da incompreensão dos de fora. Deste modo nas relações com outras igrejas, considerá-las de maneira inimigas da causa de Deus, se vêem reduzidas à mínima expressão e é mais difícil que um membro abandone a igreja ou que procure alternativas verdadeiramente cristãs. Porque é dentro da igreja que se está protegido do mal que reina no mundo. Sair da igreja e ir para outra é entregar-se a esse mal e é o mesmo que um suicídio. Deste modo, consolidam-se os laços entre seus membros e o líder reforça nos seus seguidores a sensação de pertencer a um grupo diferente e especial, através do apelo sensacionalista e sentimental. Os adeptos acabam por se seduzir pelo apelo emocional do líder na resistência às criticas como verdadeiros heróis, valentes e destemidos “servos de Deus”. Usam a manipulação emocional da pena ou a lástima, fazendo-se a se mesmo vítimas, para esconder sua própria covardia na hora de enfrentar como verdadeiros homens suas responsabilidades. Na verdade, eles não são as vítimas, eles são os verdugos.

21. Proselitismo

Um líder abusivo sempre arregimenta seus seguidores a remover céu e terra para atrair um novo membro. Fazem de tudo para apresentar a igreja como “o lugar certo e verdadeiro”. Eles se esforçam, em grande parte da conversa, em expor as virtudes da sua igreja em comparação a supostos defeitos de outras instituições. Para captar um novo prosélito, mostra-lhe a Denominação como um novo lar, um refúgio e presta-lhe uma atenção extraordinária – o visitante será ouvido, compreendido, atendido e bombardeado por um falso amor, exagerado e pegajoso muitas vezes, de muito contato físico. Inicialmente, o líder passa a dedicar seu tempo escutando, atendendo e fazendo o visitante sentir-se aceito e amado. Mais tarde, virá a indiferença: o novo membro se converte em mais um número para engrandecer a congregação e com isso o ego do líder. O objetivo de captar prosélitos não é outro senão ter máquinas de fazer dinheiro (seja por dízimos, seja por mão-de-obra gratuita) para manutenção e expansionismo da Denominação. Cruzam mar e terra para se fazer um novo prosélito, e quando o tenham doutrinado, esses tornam pior do que eles mesmos.

COMO PROCEDER

Notamos, então, que as igrejas abusivas possuem diversos sinais ou características comuns, e que revelam a existência de uma mente adoecida por detrás de todas elas. Devemos ter isto em mente, para nunca cometermos o erro de combatermos forças espirituais com armas naturais. Podemos e devemos estudar acerca das igrejas abusivas, a fim de que possamos principalmente instruir pessoas que estão ou estiveram aprisionadas por elas e desejam ser libertas pela Graça de Deus; nunca, porém, para debatermos com seus seguidores. A quase totalidade destas igrejas são compostas por pessoas fanatizadas, porque são alimentadas diariamente por um espírito de contenda religiosa, muito em função dos ensinos intensos, egocêntricos e nervosos de seus líderes, logo, os fiéis são baixos para proteger a credibilidade do grupo. Quando passamos a discutir com eles, estamos, na verdade, “fazendo o jogo” de “quem é quem que está com a verdade”. Eles gostam disso, porque é disso que se alimentam no dia a dia, e assim crêem. Isso é vaidade. Nossa posição cristã deve ser a de rejeitar seus ensinos sem discussão, ao mesmo tempo em que devemos amar as pessoas que estão presas por esses ensinos e demonstrar a elas o nosso cristianismo através de nossas vidas, não de nossas palavras.

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Referências:

  1. De David Henke, traduzido e adaptado com a permissão de WatchmanFellowship, Inc.Tradução e adaptação: Marcelo Parga de Souza.
  2. Feridos em Nome de Deus, Marília Camargo César – Mundo Cristão.
  3. Outra Espiritualidade, Ed René Kivitz – Mundo Cristão.
  4. Decepcionados com a Graça, Paulo Romeiro – Mundo Cristão.
  5. AGIR – Agência de Informações Religiosas
  6. De Ronald m. Enroth, traduzido por Pr. Serol, Batista, Blog Verbo da Vida
  7. Bíblia Apologética.

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