A Reforma Protestante

A Igreja Católica tinha chegado a uma situação deplorável, a ponto de vender licença para quem quisesse pecar. Quem tinha mais possibilidades financeiras, podiam, com a compra das indulgências da Igreja Católica, cometer qualquer tipo de pecado.  Os pontífices vendiam a salvação aos seus fiéis e, em virtude da mentalidade da época – um povo completamente alienado, vítima do obscurantismo da Igreja (que impedia o conhecimento escriturístico, filosófico e científico) – gerou lucros fabulosos para a Santa Sé que explorava a uma população já miserável e carente, desvirtuando-se totalmente da moral. Para completar, inúmeros indivíduos que exerciam atividades eclesiásticas eram completamente despreparados para a função e preocupavam-se exclusivamente com os lucros fáceis que ela, e a posição social que dela advinha, gerava.  No entanto, certos teólogos passaram a denunciar todo esse panorama e, gradualmente, a Igreja Católica caiu em descrédito.  Membros da elite intelectual eclesiástica passaram a estudar novas formas de espiritualidade baseando-se no humanismo, misticismo, filosofia clássica e outras vertentes do pensamento humano.

Diante de tantas coisas erradas e corrompidas na Igreja Romana, uma reforma era urgente. Veio à Reforma na busca de consertar o que estava errado: voltar à Palavra de Deus. A igreja precisava ser restaurada no reto caminho e abandonar os desvios que havia tomado.

Martinho Lutero, teólogo alemão e o artífice da Reforma Protestante, nasceu em 10 de novembro de 1483, na cidade de Eisleben. Lutero era um monge católico alemão que, a partir do estudo das Escrituras, descobriu a verdade de que o justo deveria viver pela fé (Rm 1.17). Convencido por essa verdade da Palavra de Deus, Lutero, a princípio, desejava corrigir os erros que encontrava na Igreja Católica, e não dela egressar. Embora nascido em família pobre, Lutero obteve bons estudos primários e posteriormente recebeu formação acadêmica na Universidade de Erfurt. Obteve bacharelado em Artes em 1502.  Três anos mais tarde passa a estudar Direito, conforme o desejo dos pais, porém altera seu destino ao seguir posteriormente a vida religiosa, entrado para a Ordem dos Agostinianos, ordenando-se em 1507.  Em sua viagem a Roma, entrou em contato com a alta classe religiosa e observou, desde logo, sua riqueza ostensiva e imoral.  Entrou para a Universidade de Wittenburg e doutorou-se em Teologia em 1512.

Intrigado com o que havia visto em Roma, passou a dedicar-se às suas teses. A indignação de Lutero voltava-se principalmente para o caráter mercantilizado das indulgências, em que aqueles considerados pecadores pagavam determinadas somas à Igreja de Roma para a remissão de seus pecados, tanto para vivos, quanto para parentes já mortos.  Fez muitas conferências confirmando que o justo iria viver da fé. Em vários sermões, ele condenou a prática da venda da indulgência.  Assim, elaborou noventa e cinco artigos em que analisava as falhas doutrinárias da Igreja Romana, assim como os abusos materiais cometidos pela Instituição Religiosa. E, no dia 31 de outubro de 1517, véspera do “Dia de todos os Santos”, ouviram-se fortes marteladas na porta da “Igreja do Castelo”, na cidade de Wittenburg.  Era Lutero condenando o Papa Leão X e seus legados numa bula de 95 teses. Suas teses logo ganharam fôlego ao serem largamente propagadas, alimentando assim o espírito revolucionário religioso, sendo acusado de “herege” por seus próprios companheiros.

Diante das primeiras notícias quanto à divulgação e o teor das idéias de Lutero, o Papa Leão X passou a condená-lo severamente, exigindo mudanças em sua posição.  Em contrapartida, Lutero dá mais fôlego às suas idéias reformistas ao publicar uma série de obras, entre elas “Da liberdade Cristã” e “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”, passando a atacar os sacramentos e o papado de modo mais incisivo que de início. O marco de sua total separação da Igreja Romana deu-se em 1521, quando foi excomungado. Lutero passou a ser duramente perseguido, tendo sido obrigado a refugiar-se no Castelo de Wartburg. Lá, Lutero dedicou-se à célebre tradução do Novo Testamento para o alemão.

A Igreja Romana reagiu duramente a esse ato de Lutero, mas se iniciava ali o movimento da Reforma Protestante (daí a origem da palavra: protestante: pro + teses). Lutero foi excomungado e perseguido pela Igreja Romana, mas contou com o apoio do povo alemão. A verdade da justificação pela fé estava apenas começando a percorrer a Europa.

Lutero era um homem inteligente, porém, muito genioso.  Ele tinha toda razão em revoltar com os procedimentos da Igreja da qual procedia. Mas, apoiado pelos imperadores regionais e pelo povo de muitas cidades alemãs, Lutero levou a afinco suas idéias. Ao meio de muita confusão e guerras ele conseguiu realizar uma revolução na Igreja Católica da Alemanha em 1521.  Esta Igreja foi chamada de Luterana e seus seguidores, Luteranos.  Na Alemanha e em alguns outros países do norte europeu ela se tornou a religião oficial do país.  A maioria das igrejas católicas que existiam nesses países – incluindo os fiéis, prédios e padres – simplesmente se tornaram luteranos. Geralmente as freiras se casaram com ex-padres. O termo missa foi conservado. As formas litúrgicas de dirigir a missa quase não mudaram. O batismo infantil era uma lei que deveria ser cumprida.  A hierarquia continuava a mesma, sendo o primeiro chefe da Igreja Luterana o próprio Lutero.

O movimento reformista, desencadeado pelas idéias de Lutero tornou-se, então, independente de sua participação, passando inclusive por várias divisões internas. Sucederam a Lutero, portanto, outros grandes reformadores, com João Calvino, Melanchton, Zwínglio e Knox. João Calvino pode ser considerado o grande sistematizador da teologia da Reforma com a sua obra: “As Institutas” (“A instituição da religião cristã”).

Deus conduziu homens para que a Igreja voltasse à verdade da sua Palavra. Os discípulos de Cristo do período da Reforma deixaram marcas profundas na sociedade e na Igreja. Podemos entender melhor essas marcas estudando as “bandeiras” levantadas pelos reformadores – os Sola’s da reforma.

Os Sola’s da Reforma

A palavra latina solas significa “somente”. Os reformadores definiram cinco lemas usando essas palavras e suas variações.

a) Sola Scriptura – Somente as Escrituras: A Bíblia era conhecida somente pelos estudiosos da Igreja Católica que a utilizavam como bem entendiam. A Igreja Romana defendia práticas totalmente estranhas à Palavra de Deus ensinado “doutrinas que são preceitos de homens” (Mc 7:7). O movimento da Reforma disse “não” a esse procedimento de Roma e afirmou Sola Scriptura, ou seja, somente cremos e praticamos o que a Bíblia ensina, somente a Bíblia deve ser a nossa regra de fé e prática. Os reformadores se empenharam em traduzir a Bíblia para que todas as pessoas tivessem acesso a ela e pudessem julgar os ensinos da Igreja por meio do próprio estudo da Palavra. Como as Escrituras do Novo Testamento são o Evangelho de Jesus condensado pelos apóstolos e outros discípulos, os reformados sabiam que tudo aquilo que não se enquadrava no Evangelho de Deus merecia ser jogado fora (Gal. 1:6-8).

b) Solus Christus – Somente Cristo: Crê-se que a Bíblia  é a única regra de fé e prática em matéria de cristianismo, e, estudando-a, verifica-se que Cristo é o tema central das Escrituras. Quando a Palavra de Deus é tomada como regra de vida, obrigatoriamente tem-se Cristo como centro do viver. Jesus mesmo afirmou que as Escrituras testificam dEle (Joa. 5:39). Ao caminhar com os discípulos de Emaús, após ter ressuscitado, Cristo falou sobre o fato de que toda a Escritura testificava dEle e que aquelas coisas deveriam acontecer (Lc 24:25-27). A teologia não pode estar centrada no homem, tampouco numa Instituição, mas em Cristo. A Igreja Romana, jeitosamente, colocava o homem e ela mesmo no centro da fé. Eram as necessidades do homem e da Igreja Romana que precisavam ser atendidas e não a vontade de Deus expressa em sua Palavra. Destaca-se as palavras do apóstolo Paulo aos gálatas: “Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a de Deus? Ou estou tentando agradar a homens? Se eu ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo”(Gl 1:10). Os cristãos são focados em agradar a Cristo e não os homens. Portanto, somente Cristo.

c) Sola Gratia – Somente a Graça: A Igreja Romana ensinava que a graça de Deus era concedida ao crente à medida que ele cooperava com ela, Igreja Romana. Os reformadores se levantaram contra isso afirmando a verdade bíblica de que a graça é imerecida. Em momento algum, mesmo que realizando um ato de extrema bondade aos olhos dos homens, somos dignos de qualquer merecimento da parte de Deus. Afirmar que o homem coopera com a graça de Deus é buscar uma pregação centrada nos homem e não em Deus, “pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Flp. 2:13). Urge, ainda, destacar as palavras de Paulo aos Romanos: “Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus” (Rm. 9:16).

d) Sola Fide – Somente pela Fé: A Igreja Romana não negou a necessidade da fé para a salvação. Porém, eles se referiam a uma fé que, na verdade, era um mero consentimento ao ensino da igreja. Não é essa a fé da qual fala Bíblia. Os reformadores demonstraram que a fé que traz a salvação é a confiança na promessa de Deus e Cristo de salvar pecadores. Somos tornados justos pelo sacrifício perfeito de Cristo, pois somente ele é perfeitamente justo. A justiça de Cristo é imputada a nós pela fé. Não se trata de uma fé, que também seria “cooperativa”, mas da fé que nos é concedida por Deus: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” (Ef. 2:8-9). A palavra de Deus  nos ensina: somente pela fé!

e) Soli Deo Gloria – Somente glória a Deus: Os reformadores perceberam que a glória de Deus estava sendo dividida em Roma. A razão desta decretação pelos reformadores foi porque não só a figura do Papa era venerada pelos fiéis, mas também os santos de Deus do passado, além da própria Igreja Romana, que era centro e fundamento para a fé das pessoas. Mas a verdade diz que tudo resulta na glória de Deus. Toda a glória é devida ao seu nome. Deus revelou-se através das Escrituras; enviou seu Filho para morrer no lugar de seus escolhidos; concedendo, somente por sua graça, a salvação pela fé. Os alcançados pela graça divina rendem louvores em espírito e em verdade ao Deus Todo-Poderoso.

A Reforma Protestante foi marcada por homens que decidiram seguir a Jesus, que fizeram de sua vida um testemunho do que Deus pode fazer na vida de qualquer um de nós. Foram homens que se levantaram contra não apenas um mero sistema religioso local, mas contra um Império, haja vista que os Imperadores eram totalmente atrelados à Igreja Romana. Foram caluniados, difamados, acusados de hereges e apóstatas, filhos de Satanás, blasfemadores, e após esse estigma, foram perseguidos e mortos em nome de Deus.

As Denominações Protestantes

O aumento de denominações dentro da fé Cristã pode ser ligado à Reforma Protestante, o movimento que prezou pelo princípio de que cada um teria seu direito de ler a Bíblia e manter o seu relacionamento com Deus. Desse movimento quatro divisões ou tradições principais surgiram: Luterana, Reformada, Anabatista e Anglicana. Dessas quatro, outras denominações surgiram com o passar dos séculos. Cada denominação tem uma pequena diferença em sua doutrina ou ênfase, tais como: o método de batismo, a disponibilidade da Santa Ceia; a soberania de Deus versus livre arbítrio em relação à salvação; a forma de governo eclesiástico; o futuro de Israel e da igreja; arrebatamento antes ou depois da tribulação; a existência dos dons de “sinais” na era moderna etc.

Algumas denominações enfatizam pequenas diferenças doutrinárias, mas geralmente é o caso que elas apenas oferecem estilos diferentes de forma, mas permanecendo unânimes e coesas no que diz respeito ao conteúdo da fé cristã. Muitas denominações possuem sua própria identidade, isto é, possuem sua própria maneira para acomodar os gostos e preferências diferentes dos cristãos, liturgias mais formais ou mais naturais, por exemplo. Todavia, ambas devem encontrar o ponto de equilíbrio em seus entendimentos, quer dizer, terem o cuidado de não incorrer aos extremos, como o ascetismo/legalismo ou hedonismo/libertinagem.

Contudo, o ponto principal dessas divisões nunca pode ser Cristo como Senhor e Salvador, tampouco a natureza, o espírito uno, universal da Igreja de Jesus; mas sim diferenças honestas de pessoas devotas, apesar de não perfeitas, que querem honrar a Deus e manter pureza doutrinária de acordo com sua consciência e seu entendimento da Bíblia, respeitando cada posicionamento, sem menosprezar os que pensam diferentes ou enaltecer, em sede de superioridade espiritual, aqueles que pensam similarmente.

Mas o certo é que as Denominações religiosas são todas frutos da ação do homem, por dissensões, individualismos, vaidades, soberba e uma série de outras coisas inerentes ao comportamento humano, o que não quer dizer que toda dissidência institucional seja produto de ações carnais, pelo contrário. Uns egressam de suas denominações originais por não encontrar alento aos seus caprichos e vaidades pessoais. Outros, por outro lado, abandonam justamente por causa de uma liderança corrupta, inquestionável e perigosa ou por um sistema doutrinário equivocado, como se tem em seitas cristãs ou igrejas nada saudáveis.

Todavia, acreditamos que Deus tem utilizado essas Instituições, apesar de serem fruto do homem, como um canal de benção para milhões de pessoas em todo mundo. Muitas denominações, apesar de seus problemas, têm sido inegavelmente usadas para a proclamação do evangelho, contribuindo, assim, para a salvação de milhares de almas. É certo que vivemos um momento terrível onde grande parte dessas denominações têm se enveredado por caminhos que envergonham sobremaneira o evangelho de Cristo, por isso devemos ter sabedoria e discernimento para entendermos a natureza e o espírito de cada Instituição, se aquilo que realmente edifica ou não.

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Referências:

1. Textos retirados da internet e outras obras literárias.

comentários
  1. Ricando S disse:

    Cara, muito bom mesmo. Parabéns por sua linguagem fácil e compreensível. Já tenho 12 anos de conversão, 30 anos de idade, e na igreja nunca ouvi/li textos sobre a história da igreja de modo tão coerente e facilitador.

    Concordo com muita coisa dita por você sobre a ICM. Esses líderes estão acabando com um povo bom e zeloso, focando a vida deles não na Palavra de Deus, mas nos interesses e doutrinas espúrias.

    Deus te abençoe.

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