A Igreja de Cristo

Algumas pessoas usam “igreja” para descrever um belo edifício no centro de uma praça proeminente. Outros a usam para descrever uma organização religiosa, completa com regiões, distritos, unidades ou dioceses. As definições confusas e tradicionais da definição e do caráter original de igreja, em nosso tempo, muitas vezes vedam o significado original desta palavra quando aplicada, sob o Novo Testamento, ao povo de Deus.

A tradição cristã legou-nos um conceito de igreja sempre ligado a prédios ou santuários como lugares de encontro do povo e de adoração a Deus. Igreja virou sinônimo de prédio, templo, lugar de adoração. “Vamos nos encontrar às 18:00 horas em frente à igreja”, quando, na realidade, o ponto de encontro é um prédio em algum lugar da cidade. As pessoas que vêm de uma tradição cristã não conseguem conceber uma igreja sem prédios, que se encontra em lares, praças, bosques e praias, porque a mentalidade ocidental inculcou, em nossa cultura, que, para se adorar a Deus ou realmente pertencer a uma igreja (não a um mero “grupo” ou reunião avulsa), é necessário comparecer a um templo ou santuário.

No contexto bíblico, o termo “igreja” designa a reunião de pessoas, sem estar necessariamente associado a uma edificação ou a uma doutrina específica. “Igreja” é uma palavra de origem grega escolhida pelos autores da Septuaginta (a tradução grega da Bíblia Hebraica feita por 72 rabinos, entre o terceiro e primeiro século a.C) da Biblioteca de Alexandria, para traduzir o termo hebraico q(e)halYahveh, usado entre os judeus para designar a assembléia geral do “povo do deserto” reunida ao apelo de Moisés.

Etimologicamente a palavra grega ekklesia é composta de dois radicais gregos: ek que significa “para fora” e klesia que significa “chamados”; logo, significa, literalmente, “chamado para fora”. E assim refere-se a um grupo de pessoas chamadas para saírem do pecado no mundo e servirem ao Senhor.

A Igreja no Velho Testamento

A “igreja” do Antigo Testamento era a nação de Israel. Naquele tempo, havia um tabernáculo para acompanhar as jornadas no deserto; após o povo ter entrado na Terra Prometida, o tabernáculo esteve em Gilgal, Betel, Siló – só para citar algumas localidades – e, finalmente, em Gibeom. Posteriormente, foi substituído pelo templo de Salomão em Jerusalém, e é a partir daí que os cristãos enxergam o templo como local de adoração.

De acordo com as instruções de Deus a Moisés, todo o povo deveria ir a Jerusalém para adorar ao Senhor como nação três vezes ao ano. Os encontros no templo para celebrar a Páscoa, o Pentecoste e a Festa dos Tabernáculos destinavam-se mais a manter a unidade religiosa da nação do que servir como meio regular de culto a Deus, porque a vida religiosa de Israel, em sua expressão diária, semanal e mensal, acontecia nas casas ou nas famílias. Jerusalém era apenas um centro de referência religiosa e governamental, já que o culto a Deus, a oração, a leitura da Lei e a guarda dos preceitos eram desenvolvidos nos lares. Portanto, a vida religiosa do povo de Deus, mesmo no tempo da velha aliança, não se restringia a um local, mas se fundamentava no lar de cada israelita.

Mais tarde, as sinagogas – que alguns afirmam ter surgido na época do desterro – constituíam-se em locais de encontros aos sábados para a leitura da Lei e as orações. Havia várias sinagogas numa mesma cidade graças ao esforço benemérito de alguém mais abastado que edificava ou separava um lugar para tal finalidade. Sua utilização, porém, era limitada praticamente ao dia de descanso, o Sábado.

A Igreja no Novo Testamento

No Novo Testamento, a palavra “Igreja” aparece por diversas vezes, sendo utilizada como referência a um agrupamento de cristãos, e não a nenhum tipo de instituição, referência geográfica ou templo físico. É um corpo constituído de componentes vivos. Como um organismo vivo, portanto, entende-se o conceito bíblico de igreja como um corpo de pessoas chamadas para fora do pecado, para serem santos. A descrição de Paulo nos ajuda a entender: “igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At.20:28).

Certos textos bíblicos, quando mal explanados, podem dar uma ideia errada do templo nos dias do Novo Testamento, como se fosse um local usado por todo o povo para adorar a Deus. Exemplo disso é o texto “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração…(At. 2.46). Muitas pessoas, por terem um conceito errado de templo, acreditam que os primeiros cristãos reuniam-se no templo de Jerusalém e esquecem que, tanto no templo do Antigo quanto do Novo Testamento, só entravam os sacerdotes para realizar os ofícios sagrados. Nem mesmo todo levita ou sacerdote podia entrar ali a menos que estivesse escalado, isto é, que seu turno o obrigasse a entrar no santuário para oferecer os sacrifícios. O povo ficava sempre do lado de fora, aguardando o sacerdote, que ministrava ao Senhor em favor deles (como se vê em Lucas 1.10).

Além disso, o templo era uma espécie de praça central da cidade, ponto de encontro, porque, ao redor dele, funcionava não apenas a vida religiosa do povo, mas também o comércio, a venda de verduras, peixes e animais para o sacrifício etc. E, como havia pátios especiais para orações, os irmãos da emergente igreja para lá se dirigiam a fim de orar, como vemos no episódio de Atos 3, em que Pedro e João foram ao templo para a oração das 15 horas. A base da vida religiosa, no entanto, continuava fora do templo, nas vilas e cidades de toda a nação.

A palavra “igreja” (com i minúsculo) se refere às comunidades de fé locais. Essa distinção deve ser feita especialmente na Igreja Primitiva, quando existia total unidade entre os cristãos nas congregações locais – “igrejas” – como a única Igreja. Uns poucos exemplos: “…à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos…” (1 Co. 1:2); “E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mt. 18:17); “…saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles” (Rm. 16:5). Igrejas locais são o resultado da pregação do evangelho. Quando as pessoas obedecem à palavra e se tornam cristãs, elas começam a reunir-se com outros irmãos na fé.

E o mais importante, o sentido universal em referênciaao todo do povo que pertence a Cristo, não importando onde ou quando ele possa estar – a Igreja (com I maiúsculo) em seu caráter universal, una, atemporal e invisível. Jesus falou da igreja deste modo: “…sobre esta pedra edificarei a minha igreja…”(Mt. 16:18). Ele não está falando apenas de uma congregação local, nem está falando de uma organização ou construção de alvenaria. Ele está falando de pessoas, pedras vivas, construídas sobre Jesus Cristo, a fundação sólida, a Pedra Angular.

Paulo falou da igreja, neste mesmo sentido universal, quando escreveu: “…Cristo é o cabeça da Igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo” (Ef. 5:23). Jesus é o Cabeça sobre todos aqueles que o servem, todos aqueles lavados e purificados de seus pecados (Ef. 5:26). E Pedro, que foi até mais sugestivo àquelas palavras ditas por Jesus, que disse que a Igreja é um edifício construído com pedras vivas:

“À medida que se aproximam dele, a pedra viva — rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele — vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo.” 1 Pedro. 2:4-5

Estas pedras vivas são os chamados santos e membros da família de Deus:

“Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor.” Efésios 2:19-22

Essas metáforas (pedra ou templo vivos) utilizadas pelo Evangelho em referência à Igreja construída em Casas do Espírito Santo, nosso corpo físico, é simplesmente em razão da prefiguração que era a Velha Aliança, em quese reverenciava, inicialmente, o Tarbenáculo, posteriormente, o Templo de Jerusalém, como a Casa de Deus, local e materialmente definidos. Na Nova Aliança, aquilo que era figura, tornou-se revelado em Jesus, que trouxe em definitivo a Verdade sobre o Reino de Deus, e ensinou a respeito do Templo de Jerusalém:

“Destruam este templo, e eu o levantarei em três dias. Os judeus responderam: Este templo levou quarenta e seis anos para ser edificado, e o senhor vai levantá-lo em três dias? Mas o templo do qual ele falava era o seu corpo.” João 2:19-21

A Nova Aliança mudou a antiga equação. Aquilo que no Velho Testamento prefigurava Jesus e a Igreja consolidou-se na Cruz do Calvário. O que era um preparo para as coisas futuras (Cl. 2. 17; Hb 10:1), se tornou inválido agora para o Evangelho (2 Co. 3:14), após a consumação por Cristo (Mt. 5:18). O véu rasgou. A Igreja, o Corpo de Cristo, se tornou o organismo vivo o qual perfaz o Reino de Deus – “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês” (Lc. 17:20-21) – em que cada cristão verdadeiro forma um Templo, Casa e Lar de Deus, onde Espírito Santo habita, individualmente no coração de cada (1 Co. 6:19; Hb. 3:6).

Portanto, Jesus não morreu para comprar terra e edifícios, nem para estabelecer alguma instituição organizacional ou definir algum ponto geográfico como “Casa” ou “Templo de Deus”. Ele morreu para comprar as almas dos homens e mulheres que estavam mortos no pecado, transformando-os em pedras, edifícios ou tempos vivos para a Sua morada (Joa14:23) nos dando a salvação e esperança da vida eterna pela fé (Ef. 2:8; Rm. 5:8; 1 Co. 6:19-20) e para praticarmos boas obras que Ele previamente nos destinou para esta vida (Ef. 2:9), sendo bondosos, justos e verdadeiros para com todos os homens (Ef. 5:9; Col. 3:12; Fp. 4:5; Tt. 3:2).

Deus não precisa de templos materiais, de locais fixos para ser adorado (lembra-se do que ele disse à mulher samaritana sobre a verdadeira adoração?). O templo de Salomão, na realidade, é uma figura do verdadeiro templo – o conjunto de pessoas que formam o santuário de Deus – e aponta escatologicamente para a igreja, a casa de oração para todos os povos!

Dessa maneira também cresceu a igreja, reunindo-se em casas e locais diversos, às vezes vários grupos de irmãos numa mesma cidade em locais separados, porque a essência da vida cristã não se resumia a um local único, mas aos lares que se encontravam em todo lugar. Por mais de 300 anos, desde seu início até a época de Constantino, a igreja reunia-se em casas sem precisar de um local chamado de templo ou santuário. As casas eram adaptadas para a reunião da família de Deus.

Igreja: Corpo Místico de Cristo

O Corpo Místico de Cristo ou mais genericamente Corpo de Cristo é o nome que figura a Igreja fundada por Jesus Cristo. Este nome apareceu na Bíblia, sendo utilizado por Paulo em I Coríntios 12:12-14, em que descreve a Igreja como o corpo de Jesus Cristo, sendo o próprio Cristo a Cabeça. Outras referências são encontradas em Romanos 12:5, Efésios 3:6 e 5:23, Colossenses 1:18 e 1:24. A Igreja é chamada de Corpo, porque a Palavra de Deus assenta na doutrina de que a Igreja não é apenas uma simples instituição, mas um corpo místico constituído por Jesus, que é a Cabeça, e pelos fiéis, que são membros deste corpo inquebrável, atemporal, invisível, único e universal, através da fé, do sacramento do Batismo e pela vida pautada na Palavra de Deus. Este nome é assente também na crença de que os fiéis são unidos intimamente a Cristo, por meio do Espírito Santo.

A Igreja é um organismo vivo, composta por cristãos, seja do passado, presente e futuro, os seus membros, no qual cada um, indiscriminadamente, representa uma partícula que perfaz este Corpo, conforme a sua vocação cristã (1 Co. 12:22-26). A Igreja é ainda chamada de Corpo místico, porque ela não é uma instituição puramente humana, material e terrena, mas também não é uma entidade puramente espiritual e divina. A Igreja é, pois, uma comunhão supra-nacional e unificadora de todo o gênero humano com Deus e em Deus.Além disto, ela é também chamada de Esposa de Cristo em referência ao seu Casamento (Dia do Arrebatamento) com o Noivo, Jesus Cristo, prometido por Deus.

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